'Um Inimigo do Povo': o conflito entre o individual e o coletivo

Por Carlos Veranai

(Foto: Marcelo Carnaval/Divulgação)

Henrik Ibsen (1828-1906), dramaturgo norueguês, é considerado um dos principais autores do chamado drama realista moderno. Um Inimigo do Povo (1882) retrata o conflito existente entre o individual e o coletivo, mostrando de que forma a população de uma pequena cidade-balneário da Noruega transforma o médico local de cidadão honrado em um inimigo do povo por conta de suas convicções a respeito da qualidade das águas que serviam os banhos públicos, fonte de riqueza para toda a cidade.

A poluição das águas é usada como metáfora no drama de Ibsen para denunciar a sujeira na estrutura social daquela cidade - no governo, na imprensa, no comércio e na sociedade em geral. A insistência do Dr. Stockmann em fazer prevalecer a verdade torna-o persona non grata para a população, sobretudo ao defender a ideia de que os valores daquela cidade estão sustentados sobre a mentira e de que o povo não tem a razão, ou seja, a maioria não tem o monopólio da verdade. Ele torna-se um inimigo do povo e conta apenas com o apoio de sua família e de alguns poucos membros da comunidade, que passam a sofrer represálias por conta disso.

(Foto: Divulgação)

A convicção de Stockmann em relação à verdade, contudo, faz com que ele se mantenha firme em seus propósitos até o fim, mesmo sabendo que seu relevante papel naquela comunidade jamais seria retomado. A história passa-se numa cidade do interior da Noruega cuja maior fonte de renda advém de sua Estação Balneária. O Dr. Stockmann inquieta-se com as doenças que turistas e concidadãos apresentam e resolve investigar a água da cidade. Para sua surpresa percebe que a água está poluída, aparentemente por lançamentos de lixívia contendo impurezas dos curtumes da cidade.

Homem da ciência, sente-se no dever de levar a verdade ao povo, mas sua denúncia representará o fechamento do balneário por dois anos, além de provocar uma suspeição geral sobre suas qualidades, mesmo depois das obras necessárias para resolver a questão. Isso causaria um transtorno para a cidade, que deixaria de lucrar com o turismo. Não denunciar o fato, contudo, vai contra os ideais de Stockmann.

(Foto: Divulgação)

Direta e polêmica
Considerada na época sua peça mais direta e polêmica, pois demonstra a capacidade de se olhar e analisar os dois lados da questão, que são o " pensamento da elite" Dr. Stockmann e o "pensamento unânime da compacta maioria , dos cidadãos" representados por aqueles que detém o poder e manipulam a opinião pública em benefício dos seus próprios interesses, isso é evidenciado na trama , no quarto ato, onde a cena resume, em grande parte, os temas centrais da da peça; os conflitos entre individual e coletivo, entre razão e emoção, entre idealismo e pragmatismo, e também claro entre justiça e o poder, contudo  podemos assim dizer que a peça mesmo escrita em 1882, hoje em 2013 ainda tem temas muito atuais.

Por mais que séculos separem a história contada por Ibsen até os dias atuais nota-se que o jogo pelo poder continua fresquinho em nossas memórias e e em nossas esquinas, ainda mais quando ele se prostitui com os veículos de comunicação e a opinião pública... A última montagem de "Um Inimigo do Povo" aqui no Rio de Janeiro foi em 1997 dirigida pelo Domingos de Oliveira e ficou em cartaz na Casa da Gávea. A peça, hoje em cartaz em uma sala bem acolhedora, de 54 lugares, chamada de Multiuso, e adaptada em semi-arena, no Centro Cultural do Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro (CCPJ, antigo Palácio da Justiça), nos faz sentir dentro da cena o tempo inteiro, em determinado momento isso fica muito claro pela direção quando a plateia passa a ser a burguesia que "julga"  Dr. Stockmann pelo seu ato, a mesma bastante ousada, pois  quase impossível assistir a este "Um Inimigo do Povo" sem tomar partido.

(Foto: Marcelo Carnaval/Divulgação)

Portando, se o espectador esquecesse que estava em um teatro, participaria, quando fosse questionada, mas isso não acontece, porém ouvimos off de vozes como se estivesse vindo da mesma. A direção de Silvia Monte é sensível, delicada e de grande habilidade, pois consegue preservar a essência da época com uma leveza que leva o espetáculo para o espectador, e os atores tem interpretações seguras e convincentes, não há gritos, o que é um acerto, pois é esse o mundo reprimido da Noruega que Ibsen conheceu, e o texto só passa a ter significado universal quando apresentado em seus próprios termos.

O cenário e figurino de Ronald Teixeira serve com muita eficiência as necessidades do texto e da época , os móveis escolhidos são adequados e fazem com que as mudanças de cenários sejam quase imperceptíveis e não atrapalham de maneira alguma a sequência e o ritmo da ação, e os figurinos são bonitos e fiéis à época. A luz de José Henrique é correta e adequada e serve muito bem  ao cenário e figurino, conferindo o clímax necessário ao drama apresentado, juntamente com a música de Edvard Grieg.

Interpretações
Marcelo Escorel faz um Dr. Stockman de forma sensível e nos mostra uma interpretação contida, porém com todas as nuances necessárias ao drama da personagem, que leva as últimas consequências seus ideais. Alexandre Mofati, com bastante possibilidades, faz um ótimo contraponto interpretando o "irmão corrupto", sem alma e sem moral , destacando a cena do "embate dos irmãos" , onde Mofati se sai muito bem. Nedira Campos está correta e parece ter a exata compreensão daquela mãe de família com seus dramas, justamente pelas ações "desmedidas" de seu marido.

(Foto: Divulgação)

Eduardo Rieche, faz o editor Sr. Hovstad, editor do jornal da época "A Voz do Povo", bastante enérgico, e nos mostra uma atuação de grande mérito, pois faz uma personagem difícil, pois conseguimos ver a diferenças de quando o personagem está do lado da verdade e quando ele se deixa levar pelo poder e tudo que o cerca. Paulo Jupyassú, que faz com maestria o impressor do jornal, tem riqueza de detalhes em sua interpretação, que ora nos mostra um humor leve, e ora nos mostra dentro desse humor um homem com medo e sofrido, tem um total domínio da plateia na cena em que há o "julgamento", de Dr. Stockman, é através desses dois personagens, o editor e o impressor, que podemos ver o quanto as pessoas são vendidas e corrompidas, e ambos os atores dão um show de interpretação nesse sentido.

Janaína Prado faz a filha Petra Stockmann com segurança, que diferente da mãe, fica a favor do pai desde o início, mostrando muito bem o lado rebelde e inconsequente da personagem. Antônio Alves e Diogo Salles, nos papéis de Morten Kill e Capitão Hosster, têm menores oportunidades, porém com interpretações bastante seguras e convincentes.

(Foto: Marcelo Carnaval/Divulgação)

Ibsen é desses poucos atores sempre contemporâneos que por isso mesmo há uma modernização visual de seus textos, seu veículo é o seu tempo e as circunstâncias de seu tempo são parte fundamental de seu veículo. A peça tem grande impacto no palco constituindo-se em uma "declaração de guerra do individualista à sociedade", apesar do pessimismo social deixa antever porém, uma vaga esperança da melhoria dos indivíduos e instituições.
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