Crítica: "Dzi Croquetes" aposta em fórmula atual e irreverente

Por Rodrigo Vianna

Cena de "Dzi Croquetes em Bandália" (Foto: Divulgação)

Ousado e irreverente. Assim é o espetáculo “Dzi Croquetes em Bandália”, que está em cartaz até o dia 31 de março, no Teatro Clara Nunes, no Shopping da Gávea, no Rio de Janeiro. No palco, 13 atores, todos homens, dão vida ao grupo de teatro que revolucionou o teatro brasileiro nos anos 70. As primeiras cenas podem até chocar os mais conservadores, com atores com os seus corpos à mostra, usando apenas um fio dental, e usando um diálogo quase que pornográfico. Mas é aí que surge a irreverência e essência desse musical, que faz dos corpos não um elemento sexual, mas um símbolo de expressão e tropicalismo. No mínimo, curioso.

Inspirados no documentário “Dzi Croquettes” (2009), dirigido por Raphael Alvarez e Tatiana Issa, jovens atores se reúnem decididos a viver uma experiência teatral baseada na filosofia do grupo de teatro. Para isso se juntam a um remanescente da formação original – aqui interpretado por Ciro Barcelos, que também assume a direção e o texto - e com o qual se lançam na aventura de viver em comunidade numa garagem abandonada. Adaptada para realizar suas performances, se constitui num espaço onde tudo pode acontecer, desde teatro até um cabaré clandestino.

(Foto: Reprodução/Internet)

O pôster do documentário, aliás, está presente no cenário também assinado por Ciro Barcelos ao lado do coreógrafo norte-americano Lennie Dale. O palco representa os fundos de uma garagem que lembram ora uma garagem abandonada, ora um antigo cabaré. Elementos cenográficos como uma bandeira do movimento hippie, um pneu de caminhão, manequins pintados em cores fluorescentes e buás situam o expectador e deixam claro o clima de deboche. Ciro e Lennie também uniram o passado e o presente com projeções de imagens dos “Dzi Croquettes” originais e cenas que marcaram o Brasil. O  efeito do telão, no entanto, poderia ter sido melhor de o fundo não fosse tão escuro.

Passeio cultural
Elaborado com vigor físico, humor e a irreverência peculiar aos Dzi Croquettes, o espetáculo mantém o forte apelo da dança do grupo. Mixando coreografias de jazz, bossa nova, samba, flamenco, bolero, tango, le parkour e wacking, o espetáculo constrói uma versão pop do Teatro Musical Brasileiro também sustentado por uma trilha de sonoridade eletrônica. O roteiro musical abrange desde a original “Rap do Dzi” de Ciro Barcelos até canções conhecidas do grande público como “El Justiciero” dos Mutantes e “Bichos Escrotos” dos Titãs.

(Foto: Reprodução/Internet)

Outros sons conhecidos do público como“1406 (Money)” dos Mamonas Assassinas, “Dois pra lá, dois pra cá” de João Bosco e Aldir Blanc, “Good Night Ladies” de Lou Reed, entre outros, também se fazem presente nas vozes dos jovens atores, porém com a roupagem moderna de Demetrio Gil, diretor musical também em cena como DJ. Aliás, a sua presença deve ser ressaltada, não só por colocar sua imagem em evidência ao olhar da plateia, mas também por se encaixar como uma peça de quebra-cabeça no musical. A tradicional mensagem antes do inicio do espetáculo ganha uma versão bem humorada e original na sua voz.

Estilo "croqueteano"
Voltando aos atores/bailarinos, o grupo foi selecionado entre 450 candidatos e faz juz ao “estilo croqueteano”. Com corpos sarados e fisicamente trabalhados, eles dão um verdadeiro show com roupas femininas e maravilhosos figurinos, assinados por Claudio Tovar. A essência do espetáculo que revolucionou o teatro brasileiro em tempos de ditadura é a mesma, mas, em cena, muita coisa mudou. Durante a madrugada, os “Dzis” se transformam em michês para poder financiar a causa. Usando asas de anjos e chifres de diabinhos, os rapazes exibem os corpos como se fosse uma mercadoria à venda.

(Foto: Reprodução/Internet)

A cena, no entanto, apesar de engraçada e debochada, também pode parecer um pouco constrangedora para os mais conservadores. Isso porque os atores interagem com a plateia e chegam a “invadir” os assentos. Um dos atores chegou a simular sexo oral com um dos convidados, outro sentou na perna e apalpou um expectador, um pouco tímido, que deixava sua cueca colorida à mostra, um prato cheio para os atores. Além disso, o elenco realiza uma espécie de “saquinho”, e pediu contribuição à plateia. Não digo aqui que sou contra a este tipo de atitude, mas nãoo tem como deixar o convidado em saia justa, e exposto perante 300 pessoas.

O texto é atual e traz gírias gays que foram criadas pelos integrantes do grupo e estão em uso até hoje. Surpreendentemente, vários temas são abordados sem perder o ar alegre que fazia parte dos shows. Durante a apresentação para convidados, no domingo (17), ficou clara a intenção de crítica e deboche dos autores. Logo no início, o elenco avisa que tudo é feito sem patrocinador. Em seguida, os atores surgem no palco vestindo espartilhos, fio dental e vestidos. Ao interagir com a plateia, eles não perdem a chance de fazer piadas picantes com famosos presentes como os atores Bruno Gissoni, Rodrigo Simas e Beto Simas.

Destaque para os musicais

(Foto: Divulgação)
As músicas ganham nova roupagem. No palco, o elenco,  formado ainda  por Wilson Procópio, Franco Kuster, Thadeu Torres, Pedro Valério, Cleiton Leite Morais, Kiko Guarabyra, Demétrio Gil, Sonny Duque, Kostya Biriuk e Bayard Tonelli brilha. Todos bem afinados, com performances bem coreografadas, equilibrando ousadia e delicadeza. O destaque fica por conta de Leandro Mello, que arrebenta cantando Elis Regina.

Em suma, todos os atores possuem uma ótima presença de palco. Mais o que mais impressiona, e digo isso de forma positiva, é o compromisso do texto com a atualidade. Tudo estava lá, nem o ex-papa Bento XVI e o novo pontífice, Francisco I, escaparam das irreverências. Nesse momento, houve gente que fez cara feia, mas acreditem, não é nada que faltasse respeito. Mas uma prova da ousadia. Se nas redes sociais o povo fez brincadeiras com  o assunto, porque não levá-las para o palco? Ciro fez isso, e deu certo.

Memórias
Houve também momentos que relembraram a trajetória do Dzi Croquettes e até os problemas que o grupo teve na época da ditadura. Fotos dos artistas sendo atacados pela polícia, nos anos 70, foram exibidas num telão, além de um belíssimo número – “Borboletas Sangram”, entre outras críticas ao longo da apresentação. Durante a perfomance, os atores surgiram com capas como se fossem veradeiras “borboletas” que acabaram de sair o casulo e estão prontas para encarar o mundo, mundo este repleto de desafios. Nos tecidos, os rostos dos “Dzis” originais estampados, mais uma homenagem ao grupo.

(Foto: Reprodução/Internet)

O enredo fica um pouco perdido no meito de tantos números e performances, mas isso aqui não vem ao caso. Se o objetivo de Ciro Barcelos era retratar a ousadia e extravagancia que girava em torno dos “Dzis” de forma atual, ele conseguiu. Mesmo com todo esse ar colorido, é impossível não se emocionar com esse musical. A união entre os integrantes e a saudade deixada por alguns deles são os elementos que podem render lágrimas nos olhos dos espectadores – mesmo aqueles que nunca ouviram falar no grupo. Não é um revival, mas o clima de nostalgia é inevitável. “Dzi Croquetes em Bandália” é uma divertida farra antropofágica, anárquica, irreverente e tropical.

(Foto: Reprodução/Internet)

Serviço:

"Dzi Croquetes em Bandália"


Local: Teatro Clara  Nunes, Shopping da Gávea, R. Marquês de São Vicente, 52 - Gávea, Rio de Janeiro.
Temporada: De 7 de março de 2013. Temporada até 31 de março.
Horário: Quinta à sábado às 21h, e domingo às 20h
Ingresso: R$ 80 (estudantes e idosos pagam meia entrada)
Duração: 75 min
Comentários
2 Comentários

2 comentários:

  1. O Espetáculo DZI Coroquettes realmente impressiona vale a pena assitir e curtir. Os arranjos musicais aliado a ótima técnica de sonorização tb chamam atenção. Creio que tenha uma complexidade para que o Operador de Áudio tenha sucesso em sua operação, pois percebesse muitas trocas de cenas e figurino, além é claro de muitas cambalhotas que provavelmente poderiam prejudicar em muito o funcionamentos dos mics, pois todos os atores são microfonados, achei isso muito bacana. A parte mais emocionante é a do Sapateado, que na verdade começa depois de um ótimo equilíbrio de voz e base quando dois atores fazem um dueto. Esse sapateado realmente impressiona o som do sapateado soando na tábua do palco faz a platéia se empolgar, creio que esteja microfonado. Resumindo, realmente de muita excelência e senti a necessidade de fazer tal elogio, tendo em vista que a matéria não fala nada sobre o o assunto.

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  2. Excelente Espetáculo, achei um pouco grande em tempo de duração, mas excelente. Estão de Parabéns !!!

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