“Argo”: Belas pinceladas de um artista em mutação

Por Francisco Carbone

(Foto: Divulgação)

Pra começar: ‘Argo‘ não é perfeito. Não é o melhor filme do ano, nem a salvação do cinema americano. Tirando essas afirmações da frente, sobra muita coisa. A principal se deve ao início do processo de onde inevitavelmente sairá do casulo ‘a lagarta’ Ben Affleck, ator medíocre (pra dizer o mínimo) transformado em diretor merecidamente respeitado. Depois de 2 filmes bem bacanas onde o mundo do crime era a mola mestra e códigos de lealdade eram colocados à prova, Affleck dá um super salto qualitativo em tema e resultado, tendo em mãos a adaptação de um livro baseado numa fantástica história real.

Saiba mais sobre a Cobertura Especial do Oscar 2013

No fim dos anos 70, seis parlamentares da embaixada americana no Irã se refugiam na casa do embaixador canadense após a invasão de revoltosos na sede. Era o auge da Revolução Islâmica, o xá do Irã estava preso na América, e cidadãos americanos eram considerados moedas de troca para a libertação do mesmo; imaginem funcionários de uma embaixada.

Sem ter ideia de como tira-los do país, o governo americano chama o especialista em expatriação Tony Mendez (Affleck) para bolar um plano de fuga. E é durante uma madrugada onde conversa por telefone com o filho que não vê há muito tempo que ele tem a mais mirabolante das ideias: com o sucesso de ‘Star Wars’, Hollywood passou a perseguir histórias interplanetárias a todo custo em busca de novos sucessos. Não seria nada estranho então que uma equipe de técnicos, produtores e artistas americanos estivessem num país do Oriente Médio procurando locações para uma dessas produções. E daí nasceu o mais improvável resgate da história americana, com chances gigantescas de dar errado a cada novo passo.

(Foto: Divulgação) 

Affleck tem como diretor a sensibilidade que muitas vezes lhe falta como ator, e transforma um resgate de reféns políticos numa grande homenagem ao cinema, no geral, e àquele produzido nos anos 70 nos EUA, em particular. Não há dúvida também que Affleck admira e almeja estar no lugar onde um dia estiveram Sidney Lumet, Francis Ford Coppola, Hal Ashby, Bob Rafelson, Alan J. Pakula e a nata que construiu o lado mais ‘auteur’ e ‘underground’ do cinema americano do período. Isso fica muito claro (e homenageado) aqui, mas é só juntar as peças pra notar que ‘Medo da Verdade’ e ‘Atração Perigosa’ bebiam da mesma fonte, mas é aqui que o vencedor do Oscar pelo roteiro de ‘Gênio Indomável’ se mostra mais maduro. Bom falar em Oscar inclusive, já que a Academia de Cinema parece totalmente inclinada a não deixar ‘Argo’ passar em branco, o que no mínimo demonstra como Ben Affleck está no caminho certo.

Se o novo diretor emula os anos 70 a cada cena, em tons de cor típicos da ótima fotografia de Rodrigo Prieto, se na discreta trilha de Alexander Desplat, ou na atuação uniforme de seu elenco, sem arroubos ou destaques, o mesmo não se pode dizer de seu ego, que ainda não lhe faz notar o óbvio: o ator Ben Affleck não tem cacife para estrelar uma produção do diretor Ben Affleck. Todo o brilho de suas imagens, toda a tensão das cenas onde o grupo de reféns precisa se disfarçar de artistas ligados a um filme de ficção chinfrim, as simpáticas presenças de John Goodman e Alan Arkin como os reais figurões da indústria cinematográfica, tudo isso ameaça ir por água abaixo a cada momento onde Affleck precisa interiorizar um personagem que está em crise pessoal e familiar. Onde se lê introspecção no roteiro, Affleck responde com um rosto estático e uma expressão monocórdia, transformando a si mesmo no único ‘senão’ de um filme onde o brilho é todo… dele.

(Foto: Divulgação) 

Ao final, fica uma excelente impressão, de um grande roteiro dirigido com brilho e consistência, de um elenco a vontade e de uma bela homenagem a uma das fases mais ricas do cinema produzido no Tio Sam, ligeiramente embaçados por um protagonista errado. Falta isso para Ben Affleck se tornar o grande diretor que já dizem que ele é: vencer seu ego.
Comentários
0 Comentários

0 comentários:

Obrigado pela sua opinião!
Contracene, seja o Artista!