'Rock in Rio - O Musical' emociona em clima de nostalgia

Por Rodrigo Vianna

 (Foto: Reprodução/Internet)

Da Cidade do Rock para a Cidade das Artes. Após meses de expectativa, “Rock in Rio – O Musical” chega aos palcos com a mesma ousadia e vigor do maior festival de música do mundo. Com orçamento de R$ 12 milhões e produção 100% made in Brasil, o musical impressiona. O Contracen@rte marcou presença na estreia para convidados, na terça-feira (8), na recém-inaugurada Cidade das Artes, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, e conferiu de perto essa megaprodução, que  traz de volta o clima das 4 edições nacionais do Rock in Rio.

Leia também: Conheça o elenco de “Rock in Rio – O Musical” 
                       História do Rock In Rio é transformada em musical

“Rock in Rio - O Musical” é produzido pela Aventura Entretenimento, responsável por sucessos como “Hair”, “A Noviça Rebelde”, “Um Violonista no Telhado” e “O Mágico de Oz”. Escrito por Rodrigo Nogueira (indicado ao Prêmio Shell por “Play”) e dirigido por João Fonseca (de “Tim Maia - O musical”), o espetáculo conta uma história fictícia e lúdica, inspirada nas emoções e transformações que a música é capaz de provocar. O espetáculo brinda os 29 anos do festival e aposta novos e antigos sucessos para agradar várias gerações. É, parece que deu certo.

(Foto: Reprodução/Internet)

Como uma jukebox, “Rock in Rio – O Musical” reúne no mesmo palco grandes nomes da música como Steve Wonder, Britney Spears, Axl Rose, Elton John, Shakira, Cazuza e Freddie Mercury. De fato, o espetáculo é uma grande miscelânea. De estilos, de histórias, de personagens, de artistas. Tenta contemplar aqueles que assistiram ao primeiro Rock in Rio, em 1985, com Queen, e aqueles que dançaram com Katy Perry e Rihanna, em 2011. Tudo, de alguma forma, foi lembrado. O lendário “Hoje é dia de rock, bebê!”, dito pela atriz Christiane Torloni, na edição de 2011, não ficou de fora.

A trama acompanha a trajetória de superação de Sofia (Yasmin Gomlevsky, de “O diário de Anne Frank”) e Alef (Hugo Bonemer, de “Hair”). Enquanto a menina, filha do organizador do maior festival de rock do mundo, não suporta ouvir música, o rapaz, mudo depois de sofrer um trauma familiar, tem um mundo particular, que expressa justamente pela música. O elenco, que no total tem 25 atores e é acompanhado por uma banda com nove músicos, conta ainda com Lucinha Lins como a mãe de Alef e Guilherme Leme como o empresário pai de Sofia.

(Foto: Reprodução/Internet)


Viagem por várias gerações
A grandiosidade da Grande Sala da Cidade das Artes faz jus a espetáculo. Cenários grandiosos, telões de alta resolução e o que há de mais novo em tecnologia ajudam a dar o tom lúdico do espetáculo e transportam o público para uma grande viagem por várias gerações. De cara, o público é brindado com uma apresentação de “Pro Dia Nascer Feliz”. No centro do palco, Alef ganha a companhia de Cazuza, Ney Matogrosso, Frejat e outros nomes que fizeram histórias nesses 29 anos de Rock in Rio. Era impossível se manter parado na poltrona. O público cantou do início ao fim. Por 2h50, o teatro se transformou no maior festival de música do mundo.

(Foto: Reprodução/Internet)

No entanto, apesar da produção impecável, devemos ressaltar alguns pontos fracos logo no primeiro ato. Sem localização geográfica ou temporal, o espectador tenta, mas não consegue se encontrar na obra até que percebe que, em cena, os quatro festivais se tornaram um só. Enquanto os personagens falam em perigo do fechamento do congresso nacional brasileiro e em uma situação política caótica, a plateia não consegue ter claro de que período da história eles estão falando. Mas nada que compromete a história. Afinal, o que importa ali é a música e como ela vai influenciar na vida dos jovens.

Musical cita momento crítico no país
No fundo político da história, o país vive a ameaça de um retrocesso, sem que a peça explicite do que trata exatamente. As autoridades falam em fechar universidades em reação a protestos estudantis e o empresário organizador do festival do rock (claramente inspirado no empresário Roberto Medina) reclama ter contra si o governador do Estado, o secretário de Segurança e o cardeal, numa referência discreta às resistências reais que Medina enfrentou quando tentava organizar o primeiro Rock in Rio. E a luta do jovem pelos seus direitos. Sofia aparece como uma líder estudantil, que passa o bastão para Alef no segundo ato, já falante, que se torna o símbolo da resistência.

(Foto: Reprodução/Internet)

Rodrigo Nogueira e João Fonseca nos presenteiam, ainda, com grandes cenas, como a visita do amigo Marvin (muito bem interpretado pelo ator Ícaro Silva) a Alef, quando ele cita os participantes do Rock In Rio. O público gosta do que ouviu e aplaude de pé. Outros momentos inesquecíveis foram “You`ve got a friend”, cantado por Glória a seu filho Alef; “Don`t let the sun go down on me”, cantado pelo elenco principal, o “Tema do Rock in Rio”, que encerra o primeiro ato; “Kiss” cantado por Mathias e Liv; e “Bohemian Rhapsody”, o melhor momento de toda a peça, cantado por Roger.

Em todas elas, o jogo é vibrante, a música encontra bom casamento com a cena sem parecer mero subterfúgio, a movimentação aproxima o espetáculo em questão ao gênero musical que todos conhecemos. A peça é embalada por sucessos que marcaram diferentes edições do Rock in Rio, como “Freedom”, do George Michael, “Marvin”, dos Titãs, “Fear of the dark”, do Iron Maiden, entre outras, em versões originais e vertidas para o português pelo próprio autor. A direção musical é de Délia Fischer, que criou novos arranjos para as canções, alinhados com a dramaturgia de cada cena.

O show de Lucinha
Lucinha Lins é um show à parte. Em suas cenas, como Glória, mãe de Alef, é fácil identificar emoção e técnica, verdade, força, domínio do palco e intenções claras. Além disso, seus números musicais são nada menos que excelentes.

Outro destaque do musical fica para Geraldo, o assistente do empresário Orlando Tepedino, interpretado pelo ator Caike Luna. No segundo ato, quando as tramas convergem para o festival propriamente dito, é ele o dono das gargalhadas, brincando com histórias famosas, como os sumiços de Axl Rose, as exigências de Freddie Mercury e outros famosos. O público se contorce quando Geraldo tenta explicar o que é “bicha” ao líder do Queen, ou em cada vez que ele erra o nome do incontrolável cantor e líder do Guns N’Roses.

Os cenários de Nello Marrese e de Natália Lana e os figurinos de Thanara Schönardie são, ao lado de Lucinha Lins, o ponto alto de “Rock In Rio”. Com entradas e saídas perfeitas, as criações enchem o palco sem ocupa-lo além do devido. O colorido, a rica exploração do tema, o nivelamento diferente providenciam bom ritmo e formam quadros interessantes para o espectador a quem a história é contada. Com iluminação de Paulo César de Medeiros e visagismo de Beto Caramanhos, os aspectos visuais do espetáculo surpreendem positivamente, trazendo agilidade, concentração e profundidade para a narrativa cênica.

A polêmica Cidade das Artes
“Rock in Rio – O Musical” chega a São Paulo, no Teatro Alfa, em data ainda não definida em maio. Até lá, o espetáculo é a oportunidade de se conhecer o imenso complexo de concreto erguido no encontro das avenidas Ayrton Senna e das Américas, na Barra da Tijuca. A briga política entre o ex-prefeito Cesar Maia – agora vereador pelo DEM – e o atual, Eduardo Paes, fez do gigante um monumento ao desperdício. De ambos.

(Foto: Reprodução/Internet)

Cesar foi acusado de distorcer as prioridades da cidade com o projeto de meio bilhão de reais assinado pelo arquiteto francês Christian de Portzamparc. Paes, que mudou o nome de Cidade da Música para Cidade das Artes, passou seu primeiro mandato inteiro dizendo que a estrutura não estava pronta e havia problemas por toda parte. Quatro anos se passaram, e o complexo de 90 mil metros quadrados, previsto para ser um imenso centro de cultura na Zona Oeste do Rio, ficou quatro anos parado, desde a inauguração improvisada por Cesar para não sair da prefeitura sem ter feito uma abertura oficial.

Por dentro, a qualidade do que pode vir a ser a Cidade das Artes dá noção mais precisa do desperdício de tempo com a casa fechada. Os espaços amplos, a acústica primorosa da sala de concerto, a qualidade do projeto arquitetônico e as muitas possibilidades de uso casam com o momento que a cidade atravessa, com um calendário repleto de eventos internacionais. O sucesso de “Rock in Rio – O Musical” poderá ser, também, o primeiro da Cidade das Artes.
Comentários
0 Comentários

0 comentários:

Obrigado pela sua opinião!
Contracene, seja o Artista!