Estreia! "Sexo, Champanhe e Tchau" aposta no simples e funcional para falar do amor e suas desilusões

Por Rodrigo Vianna

Mônica Montone e Ana Cecília Mamede em "Sexo, Champanhe e Tchau"
(Foto: Rodrigo Vianna/Contracen@rte)

Simples e funcional. Assim é “Sexo, Champanhe e Tchau”, que estreou na última sexta-feira (11), no SESC Casa da Gávea, na Gávea, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Escrito e estrelado por Mônica Montone, que atua ao lado da atriz Ana Cecília Mamede, o espetáculo – que também gerou um livro homônimo - fala de como o amor é vivido, sentido e experimentado em tempos virtuais, de carência afetiva. O texto também trata das vaidades e obsessões que às vezes são confundidas com o amor. A peça foge das megaproduções e traz, de forma humilde, uma análise sobre o amor e suas desilusões.

A montagem busca valorizar o gesto e a palavra. Para isso, as atrizes Ana Cecília Mamede e Mônica Montone (respectivamente nos papéis de Jezebel e Ela) utilizam apenas duas cadeiras, que ganham novas funções de acordo com o desenrolar da história. A trama central gira em torno de Jezebel, uma romântica escritora afogada em dívidas, que sofre uma desilusão amorosa após conhecer Eduardo. Um amor daqueles dignos de filme, capaz de tirar o sono e, ao mesmo tempo, destruir um coração magoado.

(Foto: Rodrigo Vianna/Contracen@rte)

“Sexo, Champanhe e Tchau” trata da estranheza provocada por certas relações que nos colocam frente a frente com nossos medos e obsessões. O texto, poético e sensível, também relata as dificuldades com a passagem do tempo e a adaptação à vida adulta. No palco, além das duas cadeiras, um cabideiro, uma máquina de escrever, livros e dezenas de pedaços de papel amassados, jogados pelo chão, deixando clara a dificuldade da escritora de conseguir terminar o seu livro, seja talvez pela desilusão, talvez pela falta de tesão pela vida.

Ao longo de 50 minutos, a personagem Jezebel tenta entender essas questões, num diálogo intenso e bem humorado com Ela. Mas, com habilidade narrativa – e valendo-se de sua formação como psicóloga –, a autora desenvolve uma trama paralela, mostrando que a imaturidade emocional pode estar intimamente ligada a diversas dificuldades nos campos profissional e pessoal: Como se adaptar às responsabilidades da vida adulta? Como enfrentar o medo do fracasso diante dos novos desafios? Como conquistar uma colocação no mercado de trabalho?

(Foto: Rodrigo Vianna/Contracen@rte)

Ela, o Grilo Falante
Ela aqui funciona como uma espécie de Grilo Falante, até mesmo o figurino lembra o simpático personagem de Pinóchio, mas algo indecifrável. Consciência, fantasma, fruto da imaginação. Sem definição, ela ganha vários nomes nas palavras de Jezebel. Enquanto Ana Cecília viaja com sua personagem pelo universo dramático, Mônica Montone está do outro lado da balança, oferecendo cenas inspiradoras, com humor ácido e irônico. Funciona bem. Mas confesso que no início do espetáculo fiquei na dúvida de qual estilo era o texto.


Assista no player acima ao vídeo promocional de "Sexo, Champanhe e Tchau"

Ainda falando sobre o cenário, assinado Mônica Montone e Juliana Betti, que também é responsável pela direção, o vermelho nos móveis, nos livros e até na folha presa na máquina de escrever faz uma alusão ao amor e ajuda a dar o clima de romantismo. Tudo pareceu se encaixar em cena. Seja entre elas, seja com os objetos em cenas, as atrizes deram show de interpretação e convenceram. Como na cena em que Jezebel se encontra com Eduardo pela primeira vez no restaurante, Eduardo, ali, representado por uma cadeira. Se esse era o objetivo da direção, conseguiu.

É possível amar, sem ser amado? Essa é uma das questões impostas no espetáculo. Enquanto Jezebel se perde em suas mágoas, Ela tenta acordá-la para vida, como um sopro, sempre disposta a mostrar que a vida é muito mais do que uma simples paixão de internet. Com discurso que chega a beirar o insuportável (aqui no bom sentido), Ela brinca com a situação e traz à tona todos os medos da pobre escritora. Uma boa sacada da autora foi dividir a história em rounds, como numa luta, mostrando todas as etapas do relacionamento, do prazer em conhecer ao desencontro.

De Ela para Durvalina
Os figurinos, também criados por Mônica Montone, com colaboração de Hudson Pereira e Cristina Leite, seguem a linha simples da montagem e funcionam em cena. A saia de tule de Jezebel mais uma vez transpõe o seu lado romântico e ingênuo, como uma doce bailarina. Destaque para a caracterização da (cômica) empregada Durvalina, também interpretada por Mônica. Com um simpático arco de bobs na cabeça e vestido estampado, a faxineira em nada lembra a personagem, que minutos antes desfilava sobre o palco de salto alto e blazer preto.

Durvalina, aliás, possui um papel importante no espetáculo. De forma inteligente, o texto prende o expectador e nos brinda com um grande desfecho. Assinada pela diretora Juliana Betti, a trilha sonora é um espetáculo à parte. Vai desde Elis Regina à Pink Martini, presente com “Je ne veux pas travailler”. Em suma, “Sexo, Champanhe e Tchau” tem todos os ingredientes para se tornar um grande sucesso.

Ciclo de leituras
Antes desta montagem, que também marca a estreia de Juliana Betti como diretora, a peça participou do ciclo de leituras dramatizadas nas unidades do SESC-RJ e do festival Satyrianas de São Paulo. O entusiasmo das plateias, em geral formadas por jovens, atraiu a atenção da editora Oito e meio, que decidiu publicar Sexo Champanhe e Tchau como livro (64 pp., R$ 20).

Na orelha do livro – que será lançado na noite de estreia, na Casa da Gávea – Paulo Betti assinala: "Mônica Montone nunca perde o senso crítico e o tom de humor, mas deixa se levar também pelo romantismo de sua veia poética" (Paulo Betti).

Sobre as atrizes

Mônica Montone - Mônica nasceu em Campinas, SP, e vive no Rio de Janeiro desde 2000. É autora do livro “Mulher de Minutos” (Ed. Íbis Libris, 2003) e do blog de literatura “Fina Flor” (aqui) -  que ultrapassou a marca de meio milhão de acessos. Participou das antologias “República dos poetas – Museu da República, 2005” e “Antologia Poética Ponte de Versos” (Íbis Libris, 2004); “Poesia Sempre” (Fundação Biblioteca Nacional, 2007); Poesia do Brasil (Ed. Grafite, 2007), “Amar, verbo atemporal” (Ed. Rocco, 2012), entre outras. Publicou em diversos sites, blogs e publicações tradicionais, como o jornal O Globo.

Seu trabalho foi elogiado pelos poetas e críticos literários Ivan Junqueira, Affonso Romano de Sant´Anna e Marco Lucchesi. Mônica produziu o Palavrão, o show Sol na Boca e os eventos Poesia no SESI-RJ e Sarauê na Biblioteca Nacional.

Flertando com outras artes, dirigiu e roteirizou o curta-metragem Mulher de Minutos, lançou seu primeiro CD com músicas próprias e em parceria com Claufe Rodrigues, e fez parte do elenco da peça "O Apocalipse segundo Domingos Oliveira", do diretor e dramaturgo Domingos Oliveira e Os sábados do Domingos, um cabaré filosófico, do mesmo diretor. Sexo, Champanhe e Tchau é a sua estreia como dramaturga.
 
Ana Cecília Mamede
- Atriz e bailarina, Ana Cecília Mamede iniciou seus estudos no teatro e na dança aos 13 anos de idade. É formada em Artes Cênicas pela CAL ( Escola de Artes de Laranjeiras) e bailarina profissional (Jazz e Balett Clássico).

Trabalhou em espetáculos dirigidos por Domingos Oliveira, Inez Viana,  Celina Sodré, José Possi Neto, Antonio de Bonis, Claudio Handrey e Adriano Garib.

Atuou em curtas-metragens e como modelo em campanhas publicitárias.
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