Estreia! “Ary Barroso - Do Princípio ao Fim” canta a brasilidade em forma de poesia

Por Rodrigo Vianna

Diogo Vilela como Ary Barroso (Foto: Divulgação)

Quando o ator e, agora, autor Diogo Vilela escreveu “Ary Barroso – Do Princípio ao Fim” ele queria fazer uma homenagem à altura de um dos maiores nomes da Música Popular Brasileira. De fato, ele conseguiu. “Ary Barroso – Do Princípio ao Fim” resume em três horas de espetáculo as vasta obra do sambista responsável pela clássica “Aquarela do Brasil”. É impossível não cantar os versos. Em suma, o musical canta a brasilidade, exalta, através das obras de Ary, esse “Brasil brasileiro”. Com rimas, o texto se transforma em poesia e emociona.

Em seu primeiro trabalho como autor, Diogo Vilela optou por um texto mais poético. Apesar da narrativa lenta e cansativa, o espetáculo consegue prender a atenção do público pelas canções. E o Contracen@rte conferiu de perto o espetáculo na noite de quinta-feira (24), no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro. Diferente das musicais mega produzidos, com cenários gigantescos e efeitos especiais, “Ary Barroso” é simples, humilde, mas funcional. Ao sair do teatro, o público tem pelo menos uma certeza: Ary Barroso foi mesmo um cara genial.


Assista no player acime cenas de "Ary Barroso - Do Princípio ao Fim"

“Ary Barroso – Do Princípio ao Fim” fala dos últimos dias do grande compositor que, acamado com total atenção de sua esposa, é chamado para ser homenageado pela escola de samba Império Serrano e ser tema do desfile daquele ano - 1964. Assim, Ary Barroso vai relembrando sua vida, a criação de seus grandes sucessos e também a presença de grandes amigos que fizeram parte de sua vida como Carmem Miranda, Lamartine Babo, Aracy Cortes, Alda Garrido e outros, compondo um grande painel da vida artísticas da década de 30/40.

Inspiração
Além de assinar o texto, Diogo Vilela também é responsável pela direção e dá vida ao protagonista. Segundo o ator, a ideia do musical surgiu após ele ler “Recordações de Ary Barroso - Último depoimento”, de Mário de Moraes. O resultado pode ser conferido até 31 de março no Teatro Carlos Gomes. Aliás, foi lá que, nos anos 20, Ary trabalhou como pianista. O compositor, que era mineiro, se encantou pelo Rio de Janeiro e daqui nunca mais saiu. A paixão pela Cidade Maravilhosa e pelo Flamengo, por exemplo, são contadas com maestria.

(Foto: Divulgação)

O musical situa Ary Barroso em seu leito de morte, no domingo de carnaval em que a escola de samba Império Serrano iria desfilar com o samba-enredo Aquarela brasileira (Silas de Oliveira), no dia 9 de fevereiro 1964. Ao longo de 150 minutos, o musical se arrasta em cena com as tentativas de quatro ritmistas da escola - vividos pelos atores-cantores Alan Rocha, Esdras de Lucia, Marcos Sacramento e Reynaldo Machado - de convencer o compositor a testemunhar a homenagem que iria lhe ser prestada pela agremiação no desfile.

Esse é o pretexto para que, entre lembranças e delírios, Ary Barroso rememore os principais fatos de sua biografia. A obra em si do compositor é genial, mas o texto em alguns momentos é arrastado. Apesar de doente, Ary se mostra um homem de temperamento forte, com grande alcance poético em suas composições. Sua franqueza tão costumeira quanto sua ingenuidade mineira, são expostas ao descrever suas visitas aos EUA a sua mulher Ivone, em suas cartas, e, ao falar de Carmen Miranda, sua melhor amiga naquela época.

Biografia teatralizada
O Ary “personagem” é o mote para um espetáculo que se pretende ter como alcance, mais que um gênero musical, e sim, uma biografia teatralizada vivenciada por seu protagonista como o grande testemunho dos fatos que realmente marcaram a nossa Música Popular Brasileira. O compositor confessa à sua própria obra, para nosso deleite, tudo que viu e sabe sobre o grande legado de nossa música. O musical mostra como seria uma acanhada despedida do grande homenageado  aos seus “discípulos”: o samba e o povo brasileiro.

(Foto: Divulgação)

Não está em “Ary Barroso - Do princípio ao Fim”, porém, a histórica treta que Ary teve com a ainda iniciante Elza Soares - quando ela foi se apresentar no programa dele, o mineiro perguntou: “De que planeta você veio?”. Ao que Elza, com 16 anos, rebateu: “Do planeta fome”. Porém, há passagens marcantes como a aposta curiosa com o tricolor Haroldo Barbosa, no Fla-Flu de 1955, quando o Rubro-Negro perdeu e Ary foi obrigado a raspar o bigode (símbolo de elegância na época) que usava havia 30 anos.

Como cantor, Diogo Vilela continua sendo um extraordinário ator - como fica evidente já no segundo número, o inédito samba-choro “Quantas vezes já morri”, composto para o musical. Com presença mais discreta no ingrato papel de Ivone, esposa de Ary, Tânia Alves tem seu momento ao entoar o samba-canção "Tu". Infelizmente não posso dizer o mesmo da sua interpretação. A atriz se mostrou fria e não convenceu. Apesar dos bons números, a direção musical e os arranjos de Josimar Carneiro pecam pela falta de vibração nos sambas.

(Foto: Divulgação)

Em cena com Diogo Vilela, estão nomes como Tânia Alves (que interpreta a mulher de Ary Barroso, Yvonne) e os cantores Marcos Sacramento e Mariana Baltar. Estes dois últimos integram uma recente geração de sambistas que despontaram na revitalização da Lapa. No entanto, Marcos Sacramento, apesar da sua experiência no ramo, se mostrou caricato em vários momentos e desafinou logo no primeiro número, ao cantar a tão aguardada “Aquarela do Brasil”. Por outro lado, ele se faz notar quando, na pele do pai de Ary, canta "Três lágrimas" à beira do leito do filho.

A atriz Ana Baird responde por alguns dos melhores momentos musicais desse primeiro ato. Suas interpretações dos sambas-canção "Folha morta" - cantado por Baird na pele de Aracy Cortes, cantora carioca retratada como egocêntrica no texto - e "Na batucada da vida" são sopros de vivacidade em musical de tom por vezes fúnebre. Destaque do elenco feminino, Baird também consegue evocar bem a figura da cantora paulista Linda Batista (1919 - 1988) quando dá voz ao samba-canção "Risque".

(Foto: Divulgação)

Sem cansar
No palco, vemos um Ary ainda querendo continuar a compor, e ainda querendo falar e citar pontos de vista, mesmo sabendo-se interrogado. Exatamente por ser avesso a biografias que, se desavisadas poderiam deturpar fatos e criar intrigas, nosso Ary cede a seus pupilos e confessa até mágoas, transformadas inesperadamente, em ajustes de contas dele mesmo com várias das personagens de sua época, como Lamartine Babo e Aracy Cortes, entre outros.

O compositor brasileiro que mais se destacou no exterior, sendo o único brasileiro a ter uma música de sua autoria na indicação ao Oscar, com todo um passado de glória no Teatro de Revista, até a fundação de fã clubes flamenguista, aparece fazendo toda uma revisão de sua vida, prevendo seu fim, mas também sendo forte para encará-lo, apresentando intimidades e fatos impossíveis de serem ignorados e que, para seu homenageado urgem em serem deixados para a eternidade, formando em cena uma metáfora de nossa memória cultural brasileira.

(Foto: Divulgação)

Por fim, no segundo ato, a encenação do programa de calouros comandado pelo severo Ary garante algum riso - assim como a encenação do dueto de "Boneca de pixe". A execução de trecho do Hino do Flamengo (Lamartine Babo, 1945) também provoca comunicação imediata com a plateia, transformando o teatro num grande estádio de futebol. "Ary Barroso - Do Princípio ao Fim" tem seus altos e baixos. A obra genial no compositor não salvam o texto da monotonia, mas traz de volta o brilho e as lembranças dos antigos carnavais.

Serviço: 

"Ary Barroso - Do Princípio ao Fim"

Local: Teatro Carlos Gomes, Praça Tiradentes/RJ.
Temporada de 18/Jan a 31/Mar de 2013, de quinta a domingo, 19h30min.
Classificação Etária 12 anos
Preços: Quinta-feira: R$ 20 e R$ 10 / Sexta a domingo: R$ 60 e R$ 30
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