Zélia Duncan aguça o paladar com o sabor da canção

 (Foto: Rodrigo Vianna/Contracen@rte)

Em meio a pancadões, brega e Gangnam Style, a sutileza e o talento das verdadeiras vozes brasileiras ainda arrastam centenas às casas de espetáculo. Na noite de segunda-feira (24) eu pude presenciar e me deliciar com sutiliza e simplicidade da cantora Zélia Duncan, que nos presenteou com o show “Pelo sabor do gesto”, que comemora os seus 30 anos de carreira. A niteroiense mostrou porque é considerada uma das grandes vozes da atualidade durante 1h30 de música no Theatro Net Rio, em Copacabana. Se me perguntar do que eu achei do show? Bom, acho que uma página será insuficiente pra falar. Deixo então, a minha humilde resenha de “Pelo sabor do gesto”.

Cada nova empreitada profissional parece marcar uma fase de mudanças na vida de Zélia, que, mais uma vez, apresenta um trabalho bastante diferente de seu antecessor. “Pelo Sabor do Gesto” foi indicado ao Grammy Latino e é considerado um dos melhores lançamentos da consistente discografia da cantora, que completou 30 anos de carreira em 2011. O show traz canções do CD homônimo (de 2009) e inéditas registradas ao vivo e em estúdio.

O título do álbum faz referência direta à sua primeira empreitada num palco, em 1981, motivada pela vontade de cantar e pela certeza de que essa é a paixão que alimentaria pelo resto de sua vida. O sabor desse gesto – a decisão quase intuitiva de enveredar por esse caminho – ainda ecoa pela sua vida, e é um dos fatores que fazem Zélia estar sempre buscando novidades.

O fato de “Pelo Sabor do Gesto” ser um dos melhores shows de Zélia não está calcado apenas no fato de ser inspirado no ótimo álbum, mas sim na verdade do repertório escolhido por Zélia. Desde que surgiu no cenário musical, a cantora já apresentava uma proposta nova que poderia se tornar chata caso não fosse bem tratada. Zélia tratou bem de sua carreira. Seu primeiro álbum de carreira (o sucessor do desconhecido Outra Luz, de 1990) Zélia Duncan (1994) trouxe, além de ótimos hits, o sucesso Catedral (versão de Cathedral Song) e o estouro da cantora nas rádios.

Zélia manteve-se corajosa e apostou nadar contra a maré e não repetir a fórmula já conhecida dos hits radiofônicos e lançou Intimidade (1996) que não trouxe nenhum grande sucesso, mas cultivou hits como Enquanto Durmo, Vou Tirar Você do Dicionário e a faixa-título. Zélia ainda apresentou Acesso (1998), o perigoso e bem sucedido Sortimento (2001 – o disco de Alma), sua versão ao vivo (Sortimento Vivo, 2002) e mostrou para o público sua outra face, provando assim ser uma cantora camaleônica ao interpretar sucessos dos anos 40, 50, 60 e, providencialmente, 70 com o incensado Eu me Transformo em Outras (2004). Zélia construiu uma carreira linear, mas o mais importante, verdadeira. Lançou ainda um disco considerado “imediatista” pela crítica especializada, mas nem por isso de menor qualidade. Com Pelo Sabor do Gesto Zélia apenas chegou a seu ápice.

Nova roupagem 
Usando um vestido azul e preto, de bolinhas brancas, o mesmo usado há três anos, quando ela estreou a turnê, Zélia Duncan subiu ao palco às 09h30 e abriu a noite com “Boas Razões”, do projeto anterior. "Sinto Encanto" (Moska/Duncan), "Telhados de Paris" (Nei Lisboa), "Se um dia me quiseres" (Zélia/Zeca Baleiro), "Esporte Fino Confortável" (Zélia/Chico César), "Tudo sobre você" (Ulhoa/Zélia) e "Duas Namoradas" (Itamar Assumpção/Alice Ruiz) também voltam, revisitadas em versões ao vivo.

"Felicidade", de Luis Tati, é quase um poema falado, no qual é possível sentir, com mais clareza, o toque da diretora do espetáculo, a atriz Ana Beatriz Nogueira. Surpreendente. Foi um deleite ver Zélia recitando um poema de Fernando Pessoa. Outra coisa que observei foi a integração da banda com Zélia.  Há de se ressaltar também a iluminação, que junto ao cenário transforma o palco numa verdadeira obra de arte que muda de cores em cada música. É realmente um show cheio de sabores.

(Foto: Rodrigo Vianna/Contracen@rte)

Outro momento em que ela se faz presente é na versão de "Todos os verbos do mundo" (Jeneci/Zélia), trilha de uma história especialíssima. "Recebi um email de uma pessoa contando que traduzia a minha música para língua gestual portuguesa, chamada Marta Morgado. Quando pensamos no show, Ana Beatriz me incentivou a dar os meus passos até Marta, dessa vez". Assim surgiu a ideia do registro da canção em linguagem gestual. Para surpresa do público, Zélia Duncan chama ao palco a fã portuguesa. Foi lindo ver.

Homenagem ao Rei 
Numa declarada homenagem ao Rei Roberto Carlos, Zélia incorporou duas canções em seu repertório: a lado B "I Love You" (Roberto/Erasmo) e a emblemática "Por isso corro demais" (Roberto Carlos). A banda afiadíssima, que também segura os vocais em várias canções, é formada por Ézio Filho, baixista e diretor musical do show; Webster Santos (guitarra, violão, cavaco, bandolim); Leo Brandão (teclado, acordeon) e Jadne Zimmermann (bateria).

Da safra de novidades, "Borboleta" marca a participação de Marcelo Jeneci no show: acordeom em punho, Jeneci faz dueto com a anfitriã na música assinada por ele, Arnaldo Antunes, Alice Ruiz e Zélia. "Defeito 10: Cedotardar", de Moacyr de Albuquerque e Tom Zé, completa o time de novas canções. Por fim, a cantora volta ao palco, para o bis, mas desta vez apenas com voz e violão. Zélia emociona mais uma vez com “Cathedral” e “Alma”, fechando a noite com o delicioso sabor da canção.

(Foto: Rodrigo Vianna/Contracen@rte)
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