Marisa Monte brinda cariocas com show emocionante

(Foto: Rodrigo Vianna-Contracen@rte)

Surpreendente. Assim posso resumir Verdade, uma ilusão, o novo show da Marisa Monte. A cantora se apresentou diante de um Vivo Rio lotado na noite de sexta-feira (14). Confesso que nunca fui de ouvir Marisa a fundo, a não ser pelas musicas no radio ou os mega sucessos na TV. Não pude deixar de me espantar ao saber, por ela, que a canção “ECT”, que ficou famosa na voz da saudosa Cássia Eller, foi escrita por ela em parceria com os colegas tribalistas, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes.   Com direito a efeitos especiais e em 3D, Marisa Monte passeou pelos seus 25 anos de carreira e cantou sucessos como “Ainda Lembro” e “Depois”, ambas acompanhadas lindamente pelos fãs.

Com 15 minutos de atraso, o show começou já mostrando que seria um espetáculo capaz de ultrapassar a simples reprodução de faixas de um álbum de lançamento. Mas, na minha humilde opinião, o maior encanto de “Verdade uma ilusão” esta não só no repertório, mas também na parte visual  e cênica do show. A interação entre música e artes plásticas resulta real, perfeita, inebriante, incomum.

A beleza plástica do show é algo raro se ver na cena nacional. Quinze das 25 músicas do ágil roteiro são ilustradas com obras diversas - assinadas por artistas plásticos contemporâneos - que se ajustam às letras das canções. Projetadas nos telões em imagens que ocupam toda a dimensão do palco, tais obras dão a impressão – ilusão? – de que extrapolam os limites cênicos, envolvendo artista, músicos e plateia numa aura de sedução que reitera o excelente gosto de Marisa Monte.

Por quase despercebidas duas horas, a cantora fez com que sua plateia se sentisse dentro do seu universo. O prazer de ouvir a sua voz se misturou a ilusão de um mundo de faz de conta. O que ela quer (e consegue) é elevar o patamar de um espetáculo, oferecer uma outra maneira de as pessoas (por uma sinestesia espontânea) verem e ouvirem suas canções, transformar um show em experiência elevada. A proposta foi convidar artistas plásticos para compor um visual para cada música.

Mas quando as imagens começam a se envolver com a música, quando olhos e ouvidos já conversam confortavelmente, e você nem pensa em pedir resgate pelo sequestro de seus sentidos, qualquer ideia de pretensão se desfaz.

Marisa Monte consegue isso antes mesmo de terminar a segunda música, "O que Você Quer Saber de Verdade".Orquestrado pelo diretor de arte Batmania Zavarese, o visual do show é irresistível -e quando, pela criação de Cao Guimarães e Rivane Neuenschwander, uma imensa bolha de sabão desafia a atmosfera ao longo de "Ilusión" (um clássico desde a parceria com Julieta Veneg as), sons e formas, na sua cabeça, são de fato uma coisa só, como se assim tivessem nascido e existido para sempre. Difícil falar qual desses casamentos é o mais acertado. Os "4.000 Disparos" de Jonathas Andrade para "Não Vá Embora"? Os "Manuscritos" de Mana Bernardes para "E.C.T." (quando Marisa faz então seu tributo à Cássia)? O "Dream Sequence I" de Janaína Tschäpe em "Depois"?

(Foto: Divulgação)

Suavidade e delicadeza
Em sintonia com o som harmonioso de O Que Você Quer Saber de Verdade, disco que foca o amor e a vida sob ótica positivista, Marisa canta no show em tons suaves que já nada lembram a cantora de tintas fortes que despontou retumbante na cena nacional nos fins dos anos 80. Diariamente (Nando Reis), música de 1991 em que se fazem ouvir os sutis timbres eletrônicos da banda, se encaixa bem nessa linha delicada de interpretação.

Um dos pontos altos do show foi após a apresentação de “ECT”, quando Marisa, sentada num banquinho com seu violão nas mão, fez uma simples, mas emocionante homenagem a amiga e cantora Cássia Eller. "Alguém já disse que saudade não é quando a gente sente falta de alguém, mas quando sente a sua presença", disse Marisa Monte ao falar da amiga. Foi o suficiente para arrancar aplausos calorosos de uma plateia que nessa altura já quebrava qualquer tipo de protocolo.

(Foto: Divulgação)

Beija Eu (Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Arto Lindsay) é renovada por trama de violões ao passo que Sono Como Tu Mi Vuoi (Antônio Amurri, Bruno Canfora e Maurizio Jurgens) – sucesso da veterana cantora italiana Mina Mazzini – linka o show à vivência italiana de Marisa, que – cabe lembrar – despontou no Brasil em 1989 com Bem que Se Quis, versão de Nelson Motta para canção napolitana de Pino Daniele, E Po Che Fa. 

Com quarteto de cordas na banda, o show procura reproduzir a sonoridade do CD O Que Você Quer Saber de Verdade, mas O Que se Quer – primeira parceria de Marisa com Rodrigo Amarante – perde o clima forrozeiro do disco. No fim, Não Vá Embora (Carlinhos Brown e Marisa Monte) e Carnavália (Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte) arrematam show, cujo bis é iniciado com abordagem despojada de Amor, I Love You (Marisa Monte e Carlinhos Brown), puxada por Marisa somente na voz e no ukelele. Vem então Velha Infância (Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte), o sucesso tribalista que fez toda plateia se levantar e se emocionar a cada nota. Sem dúvida, uma obra de arte para os olhos e ouvidos.
Comentários
0 Comentários

0 comentários:

Obrigado pela sua opinião!
Contracene, seja o Artista!