“A Partilha” volta ainda mais deliciosa após 20 anos

(Foto: Divulgação)
Há 20 anos atrás, Miguel Falabella escreveu a sua primeira peça de teatro. Tratava-se da história de quatro irmãs que se reencontram durante o enterro da mãe após muito tempo afastadas para fazer um levantamento dos bens da família. Nascia “A Partilha”. Para dar vida às personagens, o ator convidou Suzana Vieira, Arlete Salles, Thereza Piffer e Natália do Vale. O sucesso foi instantâneo e a peça ficou em cartaz por seis anos, chegando a cerca de 12 países e foi vista por mais de um milhão de pessoas.
Agora, os cariocas têm a oportunidade de rever esse estrondoso sucesso, com a volta do elenco original, com exceção de Natália, que saiu dando lugar à atriz e amiga Patricia Travassos (que aliás, dá um show de interpretação na pele da sofrida Selma). O espetáculo estreou no Teatro Oi Casa Grande, no Leblon, na Zona Sul do Rio de Janeiro, para uma curta temporada até 30 de setembro.
“A Partilha” nasceu do encontro entre Falabella e suas quatro amigas. Os cinco se reuniram pela primeira vez em 1991, no pequeno Teatro Cândido Mendes, também no Rio. O sucesso foi instantâneo, chegando a ficar em cartaz simultaneamente no Rio e São Paulo, com dois elencos distintos. Em entrevista à Globonews, a atriz Arlete Salles contou que teve medo da remontagem não despertar a paixão pelo novo: “Mas quando eu peguei o texto para reler, me apaixonei outra vez. Estamos trabalhando muito para trazer frescor para o público. Temos uma expectativa de um público novo, uma geração que não pode assistir”.
A comédia dramática gerou ainda uma continuação, ‘A Vida Passa’, em 2000, com o elenco original, e um filme dirigido por Daniel Filho, que foi um grande sucesso de bilheteria. A simplicidade e o bom humor que permeiam a história atingiram de imediato a memória afetiva dos espectadores e conquistaram a crítica. ‘A Partilha’ é apontada, ainda hoje, como um dos pontos altos da carreira de Falabella. Juntas, elas terão que decidir o que fazer com a herança, o que serve de pretexto para repassarem as próprias vidas, bem como toda a relação familiar.
Eu diria até que “A partilha” passa por um dos mais duros testes a que pode ser submetida uma comédia, o de ser de novo um sucesso 20 anos depois da estreia, sem qualquer alteração no texto. A divertida elegância das irmãs reunidas pela morte da mãe continua a encantar a plateia do primeiro ao último momento.
A ideia de captar, em cenas independentes, os vários estágios dessa inesperada reunião de irmãs funciona muito bem. Tudo isso é expressado em um diálogo brilhante, que empresta autenticidade a carinhos e implicâncias. As frases hilariantes sempre nascem da personalidade de cada uma ou de uma determinada situação, e por isso mesmo nunca parecem artificiais ou forçadas.
Com cenários pouco sugestivos de Beli Araújo, que não preenchem satisfatoriamente às dimensões do palco do Teatro Casa Grande e figurinos de Sônia Soares fiéis à época, mas que por vezes desfavorecem as atrizes, o espetáculo consegue superar essas falhas e se sustentar na própria trama brilhante do autor. A iluminação de Paulo César Medeiros é correta, e a trilha sonora, deliciosa. Mesmo que tenha sido necessário o uso de microfones pelas atrizes e que o cenário tenha se expandido para a adequação à embocadura do palco, a segurança do diretor, agora acrescida da maturidade, fica confirmada. Miguel Falabella passeia pelo seu texto, impondo poucas ou quase nenhuma novidade à sua direção original, preservando aquilo que a peça tinha de mais atraente, aparando aquilo que tinha de menos resolvido.

Direção impecável
A direção, que também é de Falabella, faz valer os muitos méritos do texto, desta vez com um elenco todo já integrado com os personagens; as marcas são sempre exatas, sempre trazendo o espetáculo para perto do público, sempre aproveitando o elenco no que ele tem de melhor.  As atrizes, que haviam, todas elas, conhecido seus personagens na primeira montagem, (três desde a estreia, uma, em substituição), parecem iluminadas com a alegria de estar novamente dando vida ao texto de Falabella.

(Foto: Divulgação)

Susana Vieira, Arlete Salles e Patricya Travassos formam o trio que curtiu mais unido a infância e a juventude. Thereza Piffer vive a caçula igualmente amada, mas que pode olhar com um pouquinho mais de distanciamento as irmãs mais velhas, que brigam mais justamente por terem lembranças iguais. O elenco, em conjunto e individualmente, está excelente. Atrizes com larga experiência, todas estão à vontade nos papéis, tirando dos personagens o seu melhor. Juntas, elas provam que o raio pode cair duas vezes no mesmo lugar, com a oportunidade de encantar o público.

Sem dúvida, estamos diante de um texto que permite ao espectador não apenas envolver-se profundamente com o universo das personagens, mas também, a partir deste envolvimento, refletir sobre seu próprio universo afetivo e familiar. Se o teatro, como sustenta Peter Brook, é a arte do encontro, aqui este encontro se dá em toda a sua plenitude. Encontro do espectador com o espetáculo e, fundamentalmente, consigo mesmo. Para quem não sofre de preconceito com comédias, eis aí um dos pontos altos da dramaturgia brasileira contemporânea.

(Foto: Divulgação)

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