"O Beijo no Asfalto": drama à flor da pele

(Foto: Divulgação)

Em mais de 15 anos de carreira como ator, posso dizer que já assisti pelo menos cinco montagens diferentes de “O Beijo no Asfalto”, de Nelson Rodrigues. Porém, quando achava que já tinha visto de tudo, eis que surge uma nova montagem do aclamado texto do autor tricolor. Trata-se do espetáculo que está em cartaz no teatro Gláucio Gill, em Copacabana, na Zona Sul do Rio. Sob a direção de César Rodrigues, a encenação marca as comemorações pelo centenário de Nelson Rodrigues, nascido em 23 de agosto de 1912. A montagem reestreou em Copacabana após breve e elogiada temporada no Sesc de Copacabana. Digna de aplauso, a peça beira  a perfeição. O cenário simples, mas revelador e a atuação dos atores são o ponto forte da montagem.

"O Beijo no Asfalto" é uma das “tragédias cariocas” escritas por Nelson, e um dos maiores clássicos do dramaturgo. Aborda questões fundamentais e recorrentes na obra do autor, como a fragilidade da condição humana, o juízo baseado nas aparências, as crenças duvidosas de parte da sociedade e os desejos reprimidos. A peça foi inspirada na história de um repórter do Jornal O Globo, que foi atropelado por um “arrasta sandália”, espécie de ônibus antigo. Percebendo que estava à beira da morte, o velho jornalista teria pedido um beijo a uma jovem que tentava socorrê-lo.


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         Assistam acima ao vídeo com amensagem do ator Xando Graça para o Contracen@rte
 
O elenco, formado por Augusto Garcia , Caetano O'maihlan , Fernanda Boechat , Giordano Becheleni , Letícia Cannavale , Mariah Rocha , Cristiano Garcia , Roberto Bomtempo, Thiago Mendonça , Van Loppes e Xando Graça, mostrou química e entrosamento. No fim do espetáculo, o elenco recebeu a equipe de arteiros do Contracen@rte e conversou sobre a montagem. O ator Xando Graça gravou um vídeo para o blog e mandou o seu recado, fazendo um convite aos arteiros de plantão para assistirem à montagem (confira acima o vídeo com a mensagem do elenco). E tem mais: em parceria com a produção, o Contracen@rte tem uma nova promoção que vai tirar você do sofá. Aguarde, teremos novidades em breve!

(Foto: Divulgação)
 
A direção de César Rodrigues atinge ótimos resultados nas interpretações do jornalista Amado Ribeiro (Xando Graça), de Aprígio (Roberto Bomtempo), da Viúva e da D. Judith (Fernanda Boechat), do Chefe Weneck (Cristiano Garcia) e de Dália (Mariah Rocha), porque elas exibem construções fortes, limpas, com a profundidade realista e as emoções à flor da pele, indicando o caminho escolhido pela concepção, embora nem de todo seguido enquanto linguagem. O personagem Arandir é um desafio para o intérprete e Augusto Garcia o vence bem.


A peça oferece os mesmos desafios que qualquer texto a qualquer encenador. Personagens realistas-naturalistas em trama melodramática é o jeito mais confortável no caso aqui, isto é, o caminho que permite melhores resultados mais facilmente. Há diretores que fogem dessa opção e produzem trabalhos inusitados, mas elogiáveis. Há outros que não. Aqui, nessa montagem, uma concepção merece elogios em alguns aspectos e ressalvas em outros não a partir de qualquer inexistente receita pronta, mas pela forma como sugere seu olhar sobre a obra rodriguiana.

Na equipe técnica, Aurélio de Simoni criou uma iluminação da mais alta expressividade, contribuindo de forma decisiva para a valorização dos múltiplos climas emocionais em jogo. Dani Geammal assina uma cenografia despojada e ao mesmo tempo belíssima, com Thiago Mendonça respondendo por figurinos impecáveis no tocante à época e condição social dos personagens. Verdadeiro libelo contra a hipocrisia e a intolerância, o texto também aborda muitos outros temas. Mas talvez o principal seja o poder avassalador da imprensa de manipular fatos de acordo com seus interesses - no caso, totalmente sórdidos. Pode parecer irônico um jornalista escrever isso, mas de fato é o que diz o texto. Em meio a tantas montagens, “O Beijo no Asfalto” é, sem dúvida, a cereja do bolo do centenário de Nelson Rodrigues.

(Foto: Divulgação)

O espetáculo 
Na trama de Nelson Rodrigues, o atropelado da Praça da Bandeira pede um beijo a Arandir, jovem generoso, que não recusa a última vontade de um moribundo. Amado Ribeiro, repórter do jornal Última Hora, personagem já retratado por Nelson no folhetim Asfalto Selvagem, presencia o beijo na boca entre os dois homens e, junto com o delegado Cunha, transforma a história em manchete sensacionalista.

Amado altera completamente os fatos, retratando Arandir como um criminoso que empurrou o amante para a morte edepois o beijou. A partir daí a vida do rapaz se transforma num inferno, nem mesmo sua mulher acredita que ele é inocente. O episódio ainda traz à tona segredos e questões reprimidas envolvendo Arandir, sua mulher Selminha, a cunhada Dália e o sogro Aprígio.

Serviço: 
O Beijo no asfalto
De 4 a 27 de agosto
Sábado, domingo e segunda às 21h
Teatro Gláucio Gill
Pça Cardeal Arcoverde s/n - Copacabana
Tel. (21) 2547-7003
Capacidade: 154 lugares
Duração: 70 min
Classificação: 16 anos
Ingressos: R$ 20 (inteira); R$ 10 (até 21 anos, estudantes, classe artística e maiores de 60 anos);
Horário de funcionamento: De terça a domingo, a partir das 16h
Vendas antecipadas até as 19h - Pagamento em dinheiro


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