Mãe, pátria, literatura – e muito sexo




Como fazer amor com um negro sem se cansar? A pergunta é tão surpreendente quanto o autor que escolheu a frase como título de um livro escrito há quase 30 anos, como se fosse um manual. O haitiano Dany Laferrière, que fugiu de seu país para o Canadá francês em 1976, quando tinha 23 anos e estava jurado de morte pela sangrenta ditadura Duvalier, compôs um quadro singular com a discreta Zoé Valdez, ela também exilada – de Havana para Paris – desde 1986, na mesa “O avesso da pátria”, moderada pela jornalista portuguesa Alexandra Lucas Coelho.

O livro de Laferrière, que a Editora 34 lançou nesta Flip, é “tórrido”, como ele mesmo define, porque foi escrito num longínquo verão de Montreal por um jovem “furiosamente livre”, e faz parte de uma série de romances que ele chama de Autobiografia americana. Zoé Valdez, por sua vez, está lançando aqui, pela Editora Benvirá, A eternidade do instante, cuja protagonista se chama Pátria. Cada um deles já publicou mais de 20 livros e ambos têm em suas respectivas mães uma forte inspiração. Laferrière até dedicou a edição brasileira a sua mãe, “que nunca deixou seu país nem por um minuto, como ela diz”. Ele foi criado por sete mulheres (avó, mãe e cinco tias), enquanto Valdez teve três mulheres fundamentais em sua vida: a avó, a mãe e a tia. “Elas são meu país”, diz a escritora, que abandonou os estudos de Pedagogia e de Teologia em Cuba, mas integrou a delegação cubana à Unesco em Paris. Quando seu livro O todo cotidiano, já publicado no Brasil, saiu na França em 1995, o governo cubano disse-lhe para não voltar. E ela ficou em Paris.

Para quem esperava ouvir dela um libelo anticastrista, a mesa deste fim de tarde foi uma decepção. “Separar a literatura da política é um ato político, mas prefiro falar da literatura”, disse ela. E falou, citando largamente José Martí, intelectual cubano do século XIX: “A literatura é uma viagem extraordinária”. A uma pergunta sobre sexo, citou o francês Georges Bataille, intelectual francês da primeira metade do século XX, para dizer que gosta de “explorar a linguagem erótica das sensações, a sensibilidade, não um erotismo”. A sexualidade na literatura, disse ela, “é um mistério”. E esclareceu que o escritor não escreve através de si mesmo, mas escreve tudo que ouve.

Já Laferrière, que passa por si mesmo em tudo que faz, falou com desenvoltura de política e de sexo (muito sexo), de literatura e de culinária, do exílio e da pátria, com “p” minúsculo mesmo. “Antes de me interessar pela literatura, interessei-me pelo sexo espontâneo”, avisou, lembrando que sua casa de infância tinha quase duas dezenas de habitantes e que uma das residentes, quando queria fazer amor com seu marido, tinha de mandar as crianças ao cinema – todas as 14 crianças. “Três quartos da humanidade não sabem o que é sexo espontâneo”, explicou. “O sexo não obedece ninguém, é um diabo, uma coisa que transgride – duas pessoas nuas, na cama ou na cozinha ou em qualquer lugar, não precisam de mais nada – e por isso mesmo o Estado sempre tentou controlá-lo. Mas o sexo é um canto de guerra. Por que podemos entoar esse canto na intimidade e não fora dela? É isso, é isso que me interessa!”

Do sexo, ele passou para a culinária. “Se soubesse cozinhar, teria escrito livros muito melhores”, queixou-se. Um bom cozinheiro, explicou, põe na panela alimentos totalmente diferentes e produz um gosto novo, que está relacionado a todos os gostos individuais de cada ingrediente, mas não é nenhum deles: “A cozinha é a harmonia. Provar e acertar o tempero é como corrigir um manuscrito. Acrescentar um pouco mais disso ou daquilo, a isso se chama de estilo em literatura. O bom cozinheiro não come o que preparou, porque comeu enquanto preparou, assim como um escritor nunca lê o próprio livro”.

Sobre a literatura e o processo criativo, ponderou que “o mais difícil é ser simples, produzir coisas muito sutis e muito ricas”. Perguntou-se, certa vez, porque queria “começar complexo”: “Tolstoi tem um conteúdo tão rico que precisa começar suavemente para não assustar o leitor. É como na pintura: você olha um quadro de de Chirico e ele lhe convida a penetrar, tem profundidade, perspectiva. Já os pintores primitivos se limitam a um primeiro ou segundo plano e a gente acha que eles não têm profundidade, não têm sentido histórico. Penso diferente: o quadro primitivo não convida o fruidor a um mergulho penetrante no próprio quadro, mas se instala no plexo da pessoa que olha. Não dá para sustentar um debate intelectual diante de um quadro primitivo. Concluí que sou um escritor primitivo”.

A julgar pelo trecho que leu do Como fazer amor..., um vocabulário por vezes chulo e uma descrição contundente das diatribes eróticas de dois jovens negros na Montreal dos anos 60, Laferrière é mesmo esse tipo de escritor “primitivo”. Exilado, recebia cartas de sua mãe que ficara no Haiti com perguntas sobre sua alimentação – sempre perguntava se estava comendo cenouras – e sua rotina diária. Quando o Como fazer amor... foi publicado pela primeira vez no Canadá, em 1985, ele enviou um exemplar à mãe. Tempos depois, pelo telefone, ela o parabenizou pelo livro sem fazer uma única referência à linguagem vulgar ou às cenas eróticas. Disse apenas isto: “Enfim, vejo que você comeu mesmo as cenouras!”
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