Com humor, Laerte e Angeli roubam a cena na Flip


(Foto: Divulgação)

Sem dúvida nenhuma, o encontro dos cartunistas Laerte e Angeli deu o que falar na noite de sábado (7), na décima edição da Feira Literária Internacional de Paraty (Flip), no Rio de Janeiro. A dupla dispensa qualquer apresentação. Responsáveis por grandes personagens como Wood e Stock e Rê Bordosa. Os arteiros do Contracen@rte estiveram presente na mesa que encerrou a quarta noite do evento e teve o prazer de conhecer estes que são dois dos maiores cartunistas do Brasil. A mesa foi uma das que mais contaram com a participação do público, que lotou a Tenda dos Autores, no Areal.

Laerte (Foto: Divulgação)

Não é para menos. Os criadores da lendária revista “Chiclete com Banana” pediram à produção do evento que liberasse as perguntas dos espectadores. O resultado foi uma bela interação entre “los dos amigos” e seus leitores. Sob mediação de Claudiney Ferreira, eles discuturam as diferenças nos métodos de fazer os seus cartuns, relembraram "causos" da carreira e da convivência entre os dois e tentaram definir o que pode ser aceitável como peça do humor em suas tiras. Entre uma piada e outra, Laerte brincou com a plateia e falou da sua opção de ser vestir de mulher, assunto que causou polêmica e sempre chama a atenção dos críticos. Se foi por esse motivo que o público foi conferir a palestra? Eu acho que não.


Angeli diz que é cuidadoso antes de chegar até o trabalho que vai ser impresso no jornal. "Eu não faço piadas rápidas, não solto piadas a granel. Mas já extrapolei sim. Não tenho um exemplo exato, mas fiz uma piada rasteira sobre um assunto que merceia mais 'punch'". Já Laerte recordou que uma vez fez um bandoleiro com o mal de Alzheimer que tinha que contar com ajuda da população de uma cidade para lembrar quem deveria matar. "Recebi cartas de uma associação que me fizeram pensar. Eles têm razão, mas eu também tenho". Para o cartunista, tornar um assunto como esses como tabu, "desumaniza" o portador de Alzheimer.

Angeli (Foto: Divulgação)

O bate-papo, que passeou pelo processo criativo da dupla, a arte de envelhecer, o abandono de personagens consagrados e a perda do amigo Glauco, assassinado em 2010, inevitavelmente caiu na discussão sobre os limites do humor: “Sou a favor da liberdade de criação, mas dependendo do que você fala, vai ter que lidar com isso”, disse Angeli.


Aproveitando o gancho de Angeli, partidário confesso do humor negro, o mediador Claudiney Ferreira se arriscou, ao vivo e no improviso, a testar a compreensão de humor da plateia. Ao ouvir o caso de uma mãe que reclamou de uma tirinha de Angeli sobre suicídio, por ter perdido o filho dessa maneira, Laerte reiterou que assuntos como esse não podem ser sacralizados, sob o risco da perda do humor: “Você nem sabe o que deu o gatilho para a atitude desse jovem”, ponderou Laerte. No que Ferreira emendou prontamente:Talvez o gatilho do revólver”, disse, arrancando risadas nervosas e aplausos de aprovação da plateia.


Angeli diz adorar criar personagens, “vê-los crescer e engordar. Mas ao mesmo tempo você pode se tornar refém deles”, ponderou. “Meu projeto nunca foi ser como o Schultz” (Charles Schultz, criador do personagem Charlie Brown). Alguns de seus personagens, criados em fases diversas de sua vida, quando se identificava com tribos urbanas, tiveram que ser sacrificados.


Inevitável, então, não citar a Rê Bordosa. “Morreu assim: construí a história da morte dela e morreu com dignidade”, disse. Laerte observou que “a gente não tem que acreditar em tudo que lê nos quadrinhos”, comentou sobre séries que interrompeu e introduziu na conversa o personagem Hugo/Muriel, homem que em determinado momento passa a se vestir de mulher. Assumindo o personagem como seu alterego, Laerte define o momento em que foi tomado pelo personagem: “Há uma tira de Hugo se depilando e ele diz – Às vezes, um cara tem que se montar, ué".


Um cartunista travestido
Apesar do canal aberto com o público, perceptivelmente curioso com a figura feminina assumida por Laerte, foi o próprio cartunista — que trajava vestido longo, cabelos presos em um coque e saltos altos — quem puxou o assunto travestismo. Laerte, de 61 anos, se veste de mulher há dois: “Graças ao meu personagem Hugo (um técnico de informática adepto do cross dressing), me descobri na identidade feminina. Hoje meu trabalho tem influência do que eu me tornei”, explicou. Ao ser perguntado se o ato de se depilar não era uma atitude machista, ele disse que a feminilidade é "um modelo criado. Homens simulam imagens prontas, de mulheres de capas de revista. As mulheres também usam uma imagem de feminilidade que é construída. Então não é machista raspar o pelo. Acho que é necessária a liberdade para um transgênero".

E foi assim, nesse clima cômico e interativo, que a dupla encerrou com mais risos a última mesa do dia. O diálogo ainda passou por outros temas, como o encontro da dupla, no Festival Internacional de Humor de Piracicaba, e como integraram Glauco Villas Boas ao elenco. Mas, uma vez introduzido no debate, Laerte/Muriel se negou a sair. O cartunista usava um vestido estampado, sem mangas, de uma coleção de verão da loja Collins, adaptado ao inverno por uma pashmina azul-turquesa. Esse era, afinal, o centro das atenções desde o início, mas parte da plateia saiu sem saber se Laerte foi realmente tomado por Hugo/Muriel ou se essa é sua piada mais recente.


(Foto: Divulgação)

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