Autores multiculturais lotam palestra na Flip


(Foto: Divulgaçao)

Além de serem aficionados por Tchecov, esses dois escritores têm entre si outras similaridades que justificam o convite para compartilhar a Mesa 18, “Entre Fronteiras”, com mediação do jornalista e crítico Angel Gurría-Quintana. Ambos lançam mão de elementos como o sexo e a sátira em seus livros, escrevem em língua inglesa, mas são, de certa forma, intrusos nas comunidades em que vivem, e tanto sua vida quanto sua literatura estão impregnadas de ecos distantes.

Hanif Kureishi, 58 anos, nasceu em um subúrbio ao sul de Londres, Bromley, filho de mãe inglesa e pai paquistanês. Na sessão de sábado à tarde, na Flip, ele revelou como essa origem incomum lhe causou problemas durante a infância e a juventude. “A certa altura me dei conta de que eu era um azarado por ser filho de imigrante e ter a pele escura. Na Inglaterra, os subúrbios ainda não haviam se tornado multiculturais nos anos 60. A violência, ali, era cotidiana. Aos 15 anos, eu quis descobrir de onde eu era. Então quis produzir romances. Comecei a escrever para não enlouquecer”, afirmou. E completou com bom humor: “Preferi enlouquecer os outros.”


Hanif Kureishi (Foto: Divulgaçao)

O judeu russo Gary Shteyngart, de 40 anos, também enfrentou essa situação de desgarramento cultural ao desembarcar em Nova York, aos 7 anos de idade. Nascera em São Petersburgo, ainda denominada Leningrado. No começo da década de 1970, ainda havia propaganda anticomunista nos Estados Unidos, o que colocava o garoto na situação de alguém que houvesse chegado do campo inimigo, o “império do mal”.

Na memória do menino Gary, ainda eram vívidas as lembranças da primeira infância em Leningrado. Na praça em frente à casa de sua avó, uma estátua insólita do líder bolchevique em um gesto arrebatado que lhe valeu o apelido de “Lênin latino” entre os membros família Shteyngart. Ali estava o personagem que faltava para o garoto Gary começar a carreira de escritor. A avó encorajou-o a escrever um livro, prometendo remunerar o seu trabalho com pedacinhos de queijo. Mas muito mais que isso foi o que ele mais tarde receberia como pagamento por seus textos publicados nos Estados Unidos, tanto nos ensaios para revistas como The New Yorker e Esquire como em livros exitosos como Absurdistão e O Pícaro Russo, este último considerado o livro do ano pelo jornal Washington Post.

Embora Shteyngart não se considere um intelectual, mas antes alguém que atua na área do entretenimento, foi uma conquista importante fazer sucesso comercial em um mercado tão competitivo e profissionalizado como o dos Estados Unidos. “Lá há mais escritores do que leitores”, arrisca-se a dizer. “Acho que não conheço uma única pessoa que não esteja escrevendo um romance.”

Gary Shteyngart (Foto: Divulgaçao)

Esse é, de fato, o gênero mais procurado pela indústria editorial. “Escrevo romances porque dão mais dinheiro”, admite Kureishi. “Só de vez em quando produzo contos e ensaios. Afinal de contas, tenho que sustentar meus filhos.” Quanto a Shteyngart, a opção por tratar de temas sexuais em seus livros pode não ser exatamente uma estratégia comercial. “Acho que comecei a escrever sobre isso porque não estava fazendo sexo o suficiente”, diz ele, sorrindo. “Isso me rendeu dois livros. Mas depois dos 37 anos comecei a fazer sexo e então descobri que aquilo era muito melhor do que eu havia colocado em meus livros.”
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