“Salve Jorge”: Salve!


“Eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge”. É com esse famoso trecho da canção “Jorge da Capadócia”, de Caetano Veloso, que o ator e diretor Jorge Fernando começa o seu mais novo show – como ele mesmo gosta de classificar - “Salve Jorge”, que está em cartaz no Teatro dos Quatro, no Shopping da Gávea, no Rio. Devoto do santo padroeiro, Jorge Fernando usa e abusa da sua versatilidade para contar os seus 35 anos de carreira.

Em duas horas de espetáculo, Jorginho – como é carinhosamente chamado pelos amigos – pula, brinca, dança, corre e até arrisca alguns passos de sapateado e tango, aos 57 anos, tudo isso num fôlego de colocar inveja em qualquer garotão de 20. Na peça, Jorge entra com sua própria história num circuito que já retrata em cena a vida de Emilinha, Marlene, Judy Garland e Tim Maia. Sozinho no palco, o humorista relembra de alguns fracassos e revela como os superou, com teimosia e fé em São Jorge.

Ao chegar ao teatro, o palco já chama a atenção por si só. Com elementos que marcaram a infância e carreira do diretor, como figurinos e cartazes de espetáculos que fizeram sucesso como “Boom” e “Não fuja da Raia”. Na peça, ele faz um apanhado de relatos de sua vida pessoal e profissional desde a infância até os dias atuais. Para o público relembrar as diversas facetas do ator, quatro vídeos são projetados em um telão.

Jorge Fernando também apresenta um número de sapateado - uma coreografia de cancan e imita Cláudia Raia dançando James Brown. Apesar de ser um monólogo, a plateia funciona como um personagem coadjuvante, tendo um papel importante em vários momentos do espetáculo – destaque para a participação de quatro mulheres durante um musical que resume a vida do diretor. É, se só de falar você já perdeu o fôlego, imagina isso ao vivo?

Num determinado momento do espetáculo, o teatro se transforma numa grande coletiva de imprensa, e o diretor abre espaço para o público fazer suas perguntas. Jorginho revelou que foi convidado a repassar toda a sua trajetória nas páginas de um livro, mas ele quis mesmo conta-la em cima do palco: “Não tem nada como o palco. Amo e me alimento de teatro. Apesar de já ter feito muita coisa na televisão, minha estrutura veio no teatro”, disse ele, sem perder o sorriso que virou sua marca.



Dos vários diretores da Globo, Jorge Fernando pode ser considerado o mais anticonvencional. Ao contrário dos demais, só vai trabalhar de bermuda, gosta de aparecer nas novelas que dirige e vive mostrando o bumbum para descontrair o ambiente. No entanto, essa última parte ficou por conta de uma simpática marionete, que encerrou o espetáculo em grande estilo. Aliás, há de ressaltar a cenografia. Impecável, com telões, luzes, movimentos e efeitos pirotécnicos.

Ao longo da carreira, Jorge Fernando conseguiu provar que  irreverência só não é maior que a habilidade para dirigir novelas de forte apelo popular, como “Que rei sou eu?”, “Caras e bocas" e “Guerra dos sexos”, merecidamente lembradas no espetáculo. Por tudo isso e muito mais, Salve Jorge é um mega presente para o público, que assiste ao espetáculo com a certeza de estar vivendo um momento único, ou seja, o privilégio de travar contato com alguém que se entrega sem reservas ao que faz e que ama profundamente sua profissão.

 

E já que a história do diretor renderia um bom filme, ele resolveu fazer cinema de verdade. Para ajudá-lo no palco foram produzidas dez projeções com imagens de fotografias de família, cenas da carreira. Por tudo isso e mais, só me resta pedir para que Salve Jorge fique em cartaz por muitos e muitos anos, dando a oportunidade de outras pessoas conhecerem o trabalho e o talento desse grande diretor de perto.

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