'Três Anúncios Para um Crime': justiça como ódio e vingança

Crítica por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

"Três Anúncios Para um Crime", Direção: Martin McDonagh (Foto: Divulgação - Fox Film do Brasil)
Martin McDonagh é um sujeito que venho acompanhando faz alguns anos. Talentoso para roteiros irônicos e cheios de bizarrices, foi responsável por duas produções que adoro: "Na Mira do Chefe", que lhe rendeu indicação ao Oscar, e "Sete Psicopatas e um Shih Tzu". Ambos extremamente divertidos, deliciosos de ver e impregnados de um humor negro muito particular. O que nos faz chegar em "Três Anúncios Para um Crime".

Esse seu novo projeto pouco lembra os dois anteriores, a ponto de me assustar pertencer ao mesmo roteirista. Sim, alguns pequenos pontos em comum podem ser encontrados, principalmente na personalidade forte e "engraçada" (na falta de uma palavra melhor) da personagem de Frances McDormand (Mildred), mas não passa disso: leves vislumbres. Porque no tom e teor da trama, os três filmes não poderiam ser mais diferentes. McDonagh joga de lado todo o clima de "gozação" que estava acostumado, para investir numa trajetória de dor, ódio e vingança.

(Foto: Divulgação - Fox Film do Brasil)
Aliás, mais do que investir, diria que o cineasta está interessado em investigar a condição do luto que se transforma em sede de justiça. A situação é clara e trágica: uma mulher que teve a filha assassinada e não conseguiu achar o criminoso. A partir daí, o roteiro vai nos guiando em como a protagonista lida com sua perda, os motivos por trás dos 'três anúncios' do título, e como os demais coadjuvantes encaram suas atitudes. Neste ponto somos apresentados a vários personagens que enriquecem imensamente a narrativa, como os policiais vividos por Sam Rockwell (Dixon) e Woody Harrelson (Willoughby), ambos multidimensionais e complexos.

O mais fascinante do filme é explorar as conexões humanas, sem fazer julgamento de valor ou buscar redenções forçadas. Portanto, Mildred e Dixon podem ser pessoas completamente diferentes, mas a situação os fazem aliados: o luto que virou vingança de uma, o ódio retraído de outro. É um estudo sóbrio e duro sobre uma situação que de certa forma nos surpreende. Não é comum o cinema americano abrir mão de ciclos se fechando, clímax bombásticos e a salvação no final. Ver McDonagh optar por uma trama tão pesada e cheia de possíveis armadilhas com tamanha disciplina é um tanto prazeroso. 

Seu único tropeço é na quantidade excessiva de personagens. Se por um lado os policiais são necessários e bem utilizados, por outro, o padre, a amiga de Mildred, o interesse romântico (desperdício de Peter Dinklage), o ex-marido e a namoradinha, o filho e até o 'suspeito' do assassinato não dizem muito ao que vieram. Este último, inclusive, parece inserido ali só para fazer a trama andar, visto que aparece apenas em dois momentos chaves, que estariam sem solução sem sua presença. Mas também não é nada que faça o filme desabar, pelo contrário, o roteiro é sólido o suficiente para se safar dos excessos pontuais. 

Martin McDonagh é realmente um cineasta a se observar e sua Mildred, na pele da maravilhosa Frances McDormand, tem tudo para se tornar uma dessas personagens que viram símbolo de uma temporada. Não se surpreendam com os memes, porque é uma fala melhor que a outra e a atriz as profere como ninguém. 

Nota: 4/5 (Muito Bom)

Mais informações:
- Elenco, fotos e ficha técnica completa: www.imdb.com/title/tt5027774
- Distribuidora: Fox Filme do Brasil

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo, viciado em séries, nerd nas horas vagas e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com

'Pantera Negra': o nascimento de uma nação e um herói

Crítica por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

"Pantera Negra", Direção: Ryan Coogler (Foto: Divulgação - Disney/Marvel Studios)
Faz alguns anos que entrar num filme de super-heróis deixou de ser novidade e se tornou quase a zona de conforto para o público nerd, quiça casual. Por mais divertido que seja, este "subgênero" de ação nunca foi muito agente de transformações de linguagem ou temática, salvo exceções bem pontuais. A verdade é que os produtores e estúdios especializados neste nicho sempre preferiram apostar no formato mais cauteloso, entregando produtos seguros, inofensivos e semelhantes entre si. 

Felizmente, em 2017, começaram a surgir algumas tentativas que, enfim, destoaram do histórico do cinema de super-heróis. Como apontei nas duas críticas, "Logan" e "Mulher-Maravilha" tiveram a capacidade de levar o espectador para um lugar diferente dentro de seus respectivos universos e do próprio "subgênero" que fazem parte. "Pantera Negra" dá continuidade a esta onda, se destacando como um dos filmes mais fora da curva do Marvel Studios e certamente o mais pessoal de todos.

A Marvel tem padrões de qualidade e cuidado com seus personagens que são admiráveis, de forma que raramente suas obras não entregam um mínimo de diversão e entretenimento, aliados a processos criativos apurados e de bom gosto. Entretanto, é fato que seus projetos são todos muito parecidos e os interesses do "Universo Cinematográfico" são muito maiores que os desejos artísticos dos cineastas ou mesmo que as necessidades de cada história. "Pantera Negra" é o primeiro a romper de modo mais acentuado com a fórmula do estúdio, demonstrando estilo próprio, temas políticos específicos e uma trama quase independente da história dos Vingadores. 

Ryan Coogler, responsável pelo excepcional "Creed: Nascido para Lutar", se mostra a escolha perfeita para comandar o projeto. Dono de um apuro visual impecável e acostumado a temas sociais, o diretor transforma o personagem Pantera Negra num estudo das raízes culturais afro-americanas, assim como busca o espaço dos super-heróis dentro de uma esfera de sociedade muito distante da que o cinema costuma mostrar. Ao seu próprio modo, consegue driblar a fórmula Marvel e fazer um filme muito condizente com sua filmografia e tudo que vem debatendo desde sua estreia em longas-metragens, com o também maravilhoso "Fruitvale Station". 

(Foto: Divulgação - Disney/Marvel Studios)
Se Wakanda é um desbunde para os olhos e um ambiente tão incomum na grande Hollywood, não é só por causa dos ótimos efeitos visuais. Coogler teve a sensibilidade de chamar profissionais improváveis para seu time criativo, todos oriundos do cinema independente americano, que conseguem dar um ar novo e fascinante para o reino de T'Challa. O fato de que a maioria dos cabeças de equipe também já fizeram outras produções com temáticas raciais e sociais não é coincidência nenhuma: por exemplo, a fotógrafa Rachel Morrison foi responsável por "Mudbound", a designer de produção Hannah Beachler por, vejam só, "Moonlight" e a figurinista Ruth E. Carter por "Malcom X" e "Amistad", pelos quais foi indicada ao Oscar. Tenham certeza que foi tudo pensado, parte da concepção cuidadosa e apurada de Coogler. 

Porque "Pantera Negra" é antes de tudo uma obra de protesto. Desde os primórdios dos quadrinhos até a adaptação cinematográfica, faz parte do seu cânone e de sua própria existência. Criticar o lado político do filme, é criticar o Superman por ser kryptoniano ou o Peter Parker por ser nerd. A beleza do roteiro de Ryan Coogler é conseguir ser político de forma explícita, porém ao mesmo tempo sutil. As questões que levanta fazem parte da narrativa, sem jamais prejudicá-la ou tirar sua fluidez. Pelo contrário, a enriquece e dá força aos dilemas dos personagens. O diretor também se revela confortável com o cinema de ação, mostrando coreografias de batalhas e perseguições bem claras e inventivas, que remetem desde o blaxploitation até os filmes de artes marciais de Hong Kong.

Se tivesse que apontar um pecado em "Pantera Negra" é o pouco tempo que dedica às ruas de Wakanda. Vemos muito de sua cúpula, mas pouco das engrenagens do país e de sua cultura urbana. Fora isso, até no vilão, velho problema do Marvel Studios, o filme consegue acertar. O Erik Killmonger de Michael B. Jordan é um personagem complexo, trágico e com motivações respeitáveis. Sua cena final revela uma dor interna angustiante, além de forçar um exercício de empatia magnífico no espectador. 

Que Hollywood continue investindo em projetos plurais e únicos como este, dando cada vez mais espaços a T'Challas, Finns, Dianas, Sams, Reys, Ororos e Moanas, assim como Tonys, Peters, Steves e Lukes sempre tiveram. Não é questão de "vitimismo" ou "ditadura do politicamente correto", como muitos atribuem por ignorância, preguiça de pensar (ou mau-caratismo), e sim de humanidade básica, desejo de representatividade e um mundo artístico mais diverso. Ter problema com isso talvez revele mais coisas sobre as pessoas e suas vidas fúteis do que sobre as obras em si.

Nota: 4/5 (Muito Bom)

Mais informações:
- Elenco, fotos e ficha técnica completa: www.imdb.com/title/tt1825683
- Distribuidora: Disney

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo, viciado em séries, nerd nas horas vagas e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com

'A Forma da Água': sobre comunicação e ternura

Crítica por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

"A Forma da Água", Direção: Guillermo del Toro (Foto: Kerry Hayes / Fox Film do Brasil)
Guillermo Del Toro é mesmo um sujeito fascinante. Nascido no México, faz parte da geração de ouro do cinema do país, que inclui Alfonso Cuarón, Guillermo Arriaga, Rodrigo Prieto e Alejandro González Iñárritu. 20 anos atrás seus nomes poderiam não ter muita relevância, mas hoje transitam no time A de Hollywood, sempre com grandes projetos e lembrados nas principais premiações.

Se tem uma coisa que me admira neste grupo é capacidade que eles tem de se envolverem em jornadas complexas e grandiosas ("Gravidade", "Birdman", "Círculo de Fogo", etc), trazendo inovação, identidade e qualidade artística em quase todos os filmes que colocam as mãos. Del Toro, em particular, sempre teve uma pegada de explorar universos, desafiar convenções e entregar um produto único, com sinais aparentes de suas marcas registradas. Se em anos anteriores isso significou uma certa restrição de público, em 2017 com "A Forma da Água" ele encontrou o equilíbrio perfeito entre seu cinema pessoal e um projeto de fácil aceitação.

Na camada externa, o roteiro de Vanessa Taylor e do próprio Del Toro revela uma história de amor bem acessível, cheia de coração e momentos de fácil envolvimento. Embora não fuja da fórmula de "pessoas" de mundos diferentes que se apaixonam, o texto é construído com muita ternura e delicadeza, o que nos faz sentir carinho enorme pelas figuras que vemos na tela, seja a protagonista vivida por Sally Hawkins, o pintor homossexual de Richard Jenkins ou qualquer outro dos ótimos coadjuvantes de luxo (como Michael Stuhlbarg e a sempre maravilhosa Octavia Spencer). 

(Foto: Divulgação / Fox Filme do Brasil)
Já na camada mais interna, a roteirista e o diretor buscam uma reflexão em torno da comunicação e nossa capacidade de entendimento. Hawkins, claro, é muda e se sente incompleta por não poder falar. Enquanto Jenkins é um artista que não consegue mais se expressar através de suas pinturas ou se quer confessar pra alguém seu amor. E, obviamente, a criatura não pertence ao nosso mundo, de maneira que desconhece nossos meios de interação. Em paralelo, o próprio vilão vivido por Michael Shannon, embora seja problemático como comentarei mais abaixo, mostra uma dificuldade enorme em conversar com a família e a própria esposa, a ponto de só estabelecer laços com ela se a mesma permanecer calada. A grande diferença entre os opostos que o filme apresenta é justamente a presença da arte. Se por um lado o antagonista é um homem bruto, sem nenhum aspecto criativo na vida, por outro a protagonista, o artista e a criatura se conectam através da arte. Os musicais unem as tardes de Elisa e Giles, ao mesmo tempo que ela e a criatura se conhecem através da música e da expressão corporal. Aliás, ambos encontram refúgio no cinema, seja na imaginação da moça ou na exibição de um clássico de época, que a criatura assiste com olhos de profunda admiração. 

A temática de auto-exaltação pode soar um pouco cínico, mas é feita com tamanho encanto e harmonia que funciona muito bem. Não é à toa o reconhecimento extenso que o filme está recebendo nas premiações, afinal o que Hollywood mais ama é cinema sobre cinema. "O Artista", de 2011, está ai para contar história. Outra obra sobre comunicação, onde se exalta a sétima arte, a indústria e o fazer cinematográfico. Quando vemos a sequência musical na cabeça de Elisa (que tem nome quase igual a da protagonista de "My Fair Lady", clássico do gênero), parece a cartada milimetricamente calculada de Del Toro de arrebatar o amor de seus colegas de profissão. E bem, funciona, tanto para narrativa quanto para o fim de ganhar múltiplas indicações. Mais uma vez: comunicação. Neste caso, de um diretor que sabe muito bem pra quem e de que forma ele precisa falar. 

Mas não entendam como uma crítica, "A Forma da Água" é um projeto cheio de méritos, bastante acessível e ao mesmo tempo dono de uma assinatura muito pessoal. Só não se destaca no seu vilão, um personagem ridiculamente caricatural, muito dissonante dos demais, que desperdiça um ótimo ator (Shannon). Vejam como tudo que o envolve é uma caricatura: ofende afro-americanos, homossexuais e coreanos, possui uma trilha grave e soturna, dispara grosserias e, claro, tem dois dedos podres. Consigo entender a intenção, mas parece uma solução pobre demais para um roteiro que se mostrava impecável em todos os outros aspectos.

Apesar deste pequeno tropeço, Del Toro entende como ninguém a necessidade do material que tem em mãos. Seu olhar melancólico e ao mesmo tempo doce de sua protagonista é um respiro de ternura e nos ajuda a estabelecer muito rápido uma conexão com o filme. As 13 indicações ao Oscar são mais do que merecidas, por consagrar um diretor muito talentoso que aprendeu a dominar um mercado mesmo fora de sua língua materna, num país reconhecido pelo preconceito por seus compatriotas. Ter encontrado sua voz também através da arte não é nenhuma coincidência.

Nota: 4/5 (Muito Bom)

Mais informações:
- Elenco, fotos e ficha técnica completa: www.imdb.com/title/tt5580390
- Distribuidora: Fox Filme do Brasil

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo, viciado em séries, nerd nas horas vagas e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com

'The Post: A Guerra Secreta': Spielberg sem melodramas

Crítica por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

"The Post: A Guerra Secreta", Direção: Steven Spielberg (Foto: Niko Tavernise - Universal Pictures/Divulgação)
Mesmo num ano que tivemos "Star Wars: Os Últimos Jedi" e "Blade Runner 2049", "The Post: A Guerra Secreta" é o filme que soa como a maior ficção de 2017. Em tempos de fake news e atuações vergonhosas de segmentos da imprensa, ver este recorte idealizado da profissão de jornalista não deixa de ser um pouco triste frente à nossa realidade. 

Evidente que a afirmação que abre este texto é hiperbólica e não reflete a maioria dos profissionais da área. Essa consciência é a maior força do projeto, que tenta encontrar um olhar ético no jornalismo investigativo e como o mesmo pode e tem o dever de fazer um mundo melhor. O roteiro equilibrado de Liz Hannah e Josh Singer consegue guiar o espectador, sendo didático o suficiente sem ficar expositivo. A dupla confia na capacidade do seu público, sem forcá-los com passagens redundantes ou excesso de explicações. Da mesma forma que Steven Spielberg procura encenar o texto de forma sutil, quase sem chamar atenção para si mesmo.

O diretor inclusive mostra finalmente a capacidade de não se entregar ao melodrama, deixando a narrativa sóbria e seca na maior parte do tempo (embora aqui ou ali ele dê leves fraquejadas). Por mais competente que seja, Spielberg sempre teve essa fraqueza em forçar a emoção nos seus projetos de grandes temas. A maioria de seus melhores filmes são justamente os mais voltados para o mundo pop, onde o cineasta se encontra mais a vontade de brincar e expor seu talento. Vejam sua direção enérgica e inventiva em "As Aventuras de Tintim", comparada com o aborrecimento e descontrole presentes no fraquíssimo "Cavalo de Guerra". 

(Foto: Niko Tavernise - Universal Pictures/Divulgação)
Em "The Post", Spielberg encontra o equilíbrio quase perfeito na sua filmografia, conseguindo retratar uma história magnífica sobre jornalismo, enquanto também acha espaço para uma discussão de gênero muito bem colocada, sem perder a mão em nenhuma das frentes. De um lado tem Tom Hanks, como força motriz da trama de investigação, e do outro Meryl Streep, numa jornada de autoafirmação de seu poder e autoridade. Ambos, como era de se esperar, cumprem muito bem seus papéis, transmitindo humanidade, ética e carga dramática aos seus personagens. Suas cenas juntos são os pontos altos do filme, em especial as que Spielberg sabiamente filma sem cortes e dá tempo à brilhante troca entre os dois atores.

Engenhoso também em sua composição visual, o diretor brinca com algumas gags interessantes que tem tudo a ver com a temática do texto, como nos momentos em que a protagonista Kay Graham entra em salas repletas de homens engravatados de roupas escuras que mais parecem uma mancha uniforme sem vida. Ou então, como num plano particularmente engraçado e ousado, quando a mesma personagem se posiciona no meio de uma mesa com executivos de ambos os lados e a perspectiva de vários objetos conferem a Streep quase um enorme "culhão", que os demais presentes paradoxalmente não possuem. 

Por fim, "The Post: A Guerra Secreta" é um filme com muitas passagens memoráveis, seja com a personagem de Streep atravessando um plano cheio de mulheres mais jovens que a observam com admiração, seja na ótima sequência em que os jornais começam a ser impressos com o resultado da investigação da equipe de Tom Hanks. Apesar de seus excessos pontuais, Spielberg entrega uma excelente obra sobre jornalismo, daquelas que vai entrar no mesmo time de outros clássicos como "Todos os Homens do Presidente" e o recente "Spotlight: Segredos Revelados". Que o futuro reserve épocas melhores para a atuação da imprensa, e este subgênero tão fascinante seja cada vez mais realidade do que ficção. 

Nota: 4/5 (Muito Bom)

Mais informações:
- Elenco, fotos e ficha técnica completa: www.imdb.com/title/tt6294822
- Distribuição: Universal Pictures

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo, viciado em séries, nerd nas horas vagas e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com

'O Destino de uma Nação': mais Gary Oldman que Churchill

Crítica por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

"O Destino de uma Nação", Direção: Joe Wright (Foto: Jack English - Focus Features e Universal Pictures)
Winston Churchill deve estar na lista dos personagens históricos mais representados no audiovisual. Foram inúmeros atores que já assumiram seu "manto", de Michael Gambon (em "Churchill's Secret") a John Lithgow (na maravilhosa "The Crown"). Neste "O Destino de uma Nação" chega a vez de Gary Oldman, ator versátil, cheio de papéis marcantes e um dos mais talentosos de sua geração.

Quem o conhece, sabe da sua capacidade de entregar performances únicas e ao mesmo tempo muito diferentes umas das outras. Da histeria insana e glamurosa em "O 5º Elemento" e "Drácula de Bram Stoker" até o controle absoluto na trilogia "O Cavaleiro das Trevas" e no excepcional "O Espião Que Sabia Demais". Oldman tem a habilidade de se transformar por completo, nos fazendo até esquecer da figura jovial e galante que assumiu como Sirius Black na franquia "Harry Potter" ao surgir de Churchill com uma voz cansada, dicção errônea e movimento corporal milimetricamente calculado. Claro que os quilos da excelente maquiagem ajudam, mas o trabalho do ator é mais do que perceptível e necessário para o personagem funcionar.

(Foto: Jack English - Focus Features e Universal Pictures)
Aliás, a virtude deste novo projeto de Joe Wright (que já havia flertado com o período em "Desejo e Reparação") é concentrar a narrativa no seu protagonista. As liberdades históricas são tão grandes, a ponto de colocarem Churchill num metrô conversando com cidadãos comuns, que não é bem na veracidade que o diretor busca se destacar. Para ele, o foco é mostrar a figura mítica do líder inglês, seja o revelando nas sombras cheio de imponência ou mostrando sua força quando discursava para a nação.

O deslumbramento de Wright acaba gerando alguns transtornos, como uma certa omissão de muitos fatos da vida de Churchill. Pior que licença histórica é o filme maquiar os lados obscuros do seu personagem para glorificá-lo além do necessário. Então não esperem achar algumas das políticas mais controversas e pouco populares do ex-primeiro ministro, o diretor e seu roteirista (Anthony McCarten) as esquecem por completo em prol das suas narrativas. Os próprios coadjuvantes surgem quase sempre apagados frente ao protagonista, inclusive desperdiçando alguns bons atores como Ben Mendelsohn e Kristin Scott Thomas.

Felizmente, ignorando os atalhos no roteiro e na historiografia da época, a figura que a dupla criativa concebeu e entregou para Gary Oldman é fascinante o suficiente para segurar o filme. O Winston Churchill de Oldman é talvez mais interessante que o verdadeiro. E isso por si só já é um mérito enorme para qualquer obra artística.

Nota: 4/5 (Muito Bom)

Mais informações:
- Elenco, fotos e ficha técnica completa: www.imdb.com/title/tt4555426
- Distribuição: Universal Pictures

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo, viciado em séries, nerd nas horas vagas e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com

'[nome do espetáculo]' foge à regra e traz novo conceito de musical

Por Rodrigo Vianna



Pegue quatro cadeiras, um teclado, quatro atores, um músico e um roteiro. Pronto. Temos um musical. Assim é "[nome do espetáculo]", que está em cartaz no Centro  Cultural da Justiça Federal, no Centro do Rio de Janeiro, até o dia 4 de fevereiro. O musical é uma versão nacional do premiado [title of show], da Broadway, que completa 10 anos em 2018. A versão brasileira do texto e das músicas ficou a cargo de Caio Scot, Carol Berres, Junio Duarte, Luísa Vianna e Tauã Delmiro. Aliás, a trilha sonora é um dos destaques do espetáculo, mas isso falamos mais tarde.

Na Broadway, [title of show] foi indicado ao Tony Award de Melhor Libreto de Musical e, no Brasil, [nome do espetáculo] está indicado em 4 categorias tanto no “Prêmio do Humor”, idealizado pelo ator Fábio Porchat, quanto no “Prêmio Botequim Cultural”, incluindo “Melhor Espetáculo”. Não é pra menos. Depois de assistir ao espetáculo, você deixa o teatro com a sensação de ter visto uma verdadeira obra prima do teatro musical contemporâneo. Exagero? Não acho. Para uma produção simples, sem grandes patrocínios e estrelas globais, [nome do espetáculo] foge à regra e mostra que é possível fazer musical no Brasil com pouco.

Antes de mais nada, vamos falar sobre o espetáculo. Através da metalinguagem, o musical conta a sua própria história. Com apenas quatro atores e um músico, satiriza e homenageia o gênero musical ao mesmo tempo em que aborda o próprio fazer artístico e todas as etapas de se produzir arte de maneira independente. [nome do espetáculo] é, acima de tudo, sobre sonhar e fazer acontecer. Mesmo para quem não é do meio artístico, consegue se ver nas situações proposta pelo texto.


É um musical que ri de si mesmo. No palco, vemos quatro atores: Hunter (Caio Scot), Heidi (Carol Berres), Susan (Ingrid Klug) – que rouba a cena - e Jeff (Junio Duart). Eles são acompanhados pelo “quase” mudo, Larry (Gustavo Tibi). O design de som é assinado por Gabriel D’Angelo, que também assina o espetáculo “Bibi - Uma vida em musical”, em cartaz no Rio de Janeiro. A iluminação é de Paulo César Medeiros, vencedor do Prêmio Shell, e o cenário é de Cris Delamare.

Apesar de ser uma versão de um musical original da Broadway, o texto traz situações comuns do cotidiano dos brasileiros e de fatos e nomes que estão na nossa história. Talvez por isso o público se identifique de cara. Como por exemplo quando Susan diz que vai fazer uma famosa pose da Xuxa na capa de um dos seus discos. Ou quando Heidi conta que fez teste para um papel no musical “A Noviça Rebelde”, da dupla Cláudio Botelho e Charles Moeller, que deve estrear esse ano. Assim, citando fatos, nomes e situações dos brasileiros, o espetáculo conquista o seu público.

O texto dinâmico ajuda na compreensão e desenvolvimento das cenas. É possível ver como o elenco está familiarizado com as falas e ganham liberdade para improvisar. Em dos momentos, apenas, o texto perde o ritmo, mas não compromete o todo. É sim um grande trabalho de adaptação e criação, sem transportar o espectador para uma realidade que não é dele. Isso tudo também é possível graças à ótima atuação da direção, que trabalhou nas cenas de forma clara e concisa.


Elenco afinado
Talvez uma das coisas mais positivas de se ter um elenco enxuto é a sintonia entre eles. E isso é possível ver nos 5 artistas em cena. É como se um estivesse conectado no outro. Quem roubou a cena durante toda a apresentação foi a atriz Ingrid Klug, que interpreta a hilária Susan. Com humor aguçado, intepretação impecável, é ela a responsável pelas melhores piadas do musical. Ingrid trouxe uma Susan leve, divertida e brasileira. Ué, mas não é uma história americana? Sim, mas mais uma vez entra a liberdade de criação do elenco que traz para os personagens nossas características.

Vamos falar agora de outro destaque do elenco: Junio Duart, que atuou em sucessos como “The Book of Mormon”. Junio mostrou equilíbrio de voz e soube dosar as emoções, sem parecer exagerado, nem contido. O ator mostrou domínio de cena e pareceu à vontade. Caio Scot e Carol Berres cumpriram com maestria os seus papéis e ajudaram a dar um tom mais leve ao espetáculo.


A cenografia simples, mas conceitual, deixa o espetáculo mais dinâmico. Além de assinar a direção musical do espetáculo, Gustavo Tibi é responsável pela trilha sonora, que não se limita apenas ao teclado. E sim, ele tem falas. Lembra que eu falei das músicas lá no começo? Pois bem, elas são um atrativo à parte. Com letras inteligentes, melodia e uma pitada de humor, as canções ajudam a compor a cena e não caem na mesmice de ser apenas uma justificativa para o gênero.

Depois de uma hora e meia de espetáculo, deixei o teatro com a sensação de frescor e feliz com o que acabara de ver. [nome do espetáculo] não é um musical comum e prova que é possível fazer teatro sem grandes patrocinadores. Basta a paixão pelo palco, um grupo de amigos e um bom texto. Pronto, agora, é só sentar e se divertir.

Serviço:

[nome do espetáculo]

Temporada: até 4 de fevereiro
De sexta a domingo às 19h
Local: Centro Cultural Justiça Federal
Avenida Rio Branco, 241. Centro - Rio de Janeiro
Tel: (21) 3261-2550
Preços: 40,00 (inteira)/20,00 (meia entrada)
Classificação: 14 anos
Duração: 90 minutos

Ficha Técnica:

TEXTO ORIGINAL: Hunter Bell
LETRAS E MÚSICAS ORIGINAIS: Jeff Bowen
VERSÃO BRASILEIRA (TEXTO E MÚSICAS): Caio Scot, Carol Berres, Junio Duarte, Luísa Vianna e Tauã Delmiro
DIREÇÃO ARTÍSTICA: Tauã Delmiro
ELENCO: Caio Scot, Carol Berres, Junio Duarte, Ingrid Klug e Gustavo Tibi
STAND IN: Catherine Henriques
CENÁRIO: Cris de Lamare
FIGURINO: Tauã Delmiro
ILUMINAÇÃO: Paulo César Medeiros
DIREÇÃO MUSICAL: Gustavo Tibi
DIREÇÃO VOCAL: Rafael VillarDESIGNER DE SOM: Gabriel D’Angelo
OPERADOR DE SOM: Cidinho Rodrigues
OPERADOR DE LUZ: Dans Souza
DESIGNER GRÁFICO: Thiago Fontin
PRODUÇÃO: Alessandro Zoe e Manuela Hashimoto
ASSISTENTE DE PRODUÇÃO: Gabriel Peregrino
IDEALIZAÇÃO: Caio Scot e Junio Duarte
REALIZAÇÃO: Caju Produções