Festival do Rio 2017 #10: 'The Villainess' e 'Rastros'

Por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

16) The Villainess (Ak-nyeo, Coréia do Sul, 2017), direção: Jung Byoung-Gil
(Foto: Divulgação)
Ah a Midnight Movies! Sempre reserva pra gente algumas surpresas! "The Villainess" é a cara da mostra mais alternativa do Festival do Rio, marcada frequentemente por obras malucas, trash e muitas vezes grotescas. Sinceramente não tenho muito o que analisar neste filme. A trama é mirabolante, as sequências de ação insanas e os personagens mais caricaturais impossível. Mas dentro de todo seu absurdo, o resultado final consegue até divertir um pouco. Pode não ser o melhor dos projetos asiáticos de artes marciais e ação enlouquecida, só que funciona o suficiente para gerar uns gritos de prazer. Nota: 3/5 (Bom)

17) Rastros (Pokot, Polônia, 2017), direção: Agnieszka Holland
(Foto: Divulgação)
Agnieszka Holland é uma diretora conhecida, com carreira internacional e até uma indicação ao Oscar. Dentre seus vários trabalhos, comandou o delicioso "O Jardim Secreto" e vários episódios das ótimas séries "House of Cards" e "The Killing". Mas sinceramente não consigo entender o que o Festival de Berlim viu de tão especial neste projeto atual da polonesa para concedê-la o Urso de Prata de Melhor Direção do ano. "Rastros" é sim um filme interessante, mas sofre de um mal extremamente curioso: a premissa é excelente, o final muito bom, mas o produto como um todo não passa da mediocridade. Holland e sua parceira Olga Tokarczuk não parecem se decidir o que fazer com a protagonista e, por consequência, com o segundo ato do roteiro. Embora o início seja instigante o suficiente, o desenvolvimento da história é uma arrastada e desnecessária sucessão de eventos que pouco prendem ou geram interesse ao espectador. A diretora também toma algumas decisões confusas, que incluem trilhas bombásticas em momentos sem sentido e flashbacks que nada acrescentam à narrativa. "Rastros" tem suas qualidades, mas a cada minuto que se estende, começa a parecer que seria um ótimo episódio de série policial no lugar de um longa-metragem de mais de duas horas de duração. Nota: 3/5 (Bom)

Epílogo: E assim terminamos nossa coberta do Festival do Rio 2017! Obrigado pela companhia e nos vemos ano que vem!

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo, viciado em séries, nerd nas horas vagas e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com

Festival do Rio 2017 #9: 'Em Pedaços' e '120 Batimentos por Minuto'

Por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

14) Em Pedaços (Aus dem Nichts, Alemanha, 2017), direção: Fatih Akin
(Foto: Divulgação)
Quando um filme funciona em várias frentes normalmente é um bom sinal. Isso acontece com "Em Pedaços", novo projeto de Fatih Akin (do premiado "Do Outro Lado") que transita bem entre a tragédia, história de tribunal e filme de vingança. A trama em si é bem simples, não tem reviravoltas, nem muitas camadas, o que de forma alguma é uma crítica. O roteiro disciplinado não dá espaços para arestas ou parênteses o que deixa a narrativa muito sucinta e focada na trajetória da protagonista. O próprio Akin traz qualidade ao texto que tem em mãos ao valorizar seus atores, dando para eles belos planos em que os mesmos declamam monólogos poderosos e intensos. No centro de tudo está Diane Kruger, interpretando uma mulher que perde tudo e precisa buscar um rumo na vida em meio a julgamentos, depressão e sede de justiça. A beleza na composição da atriz se encontra nas várias fases de sua personagem, que vai da alegria ao puro ódio. Seu prêmio em Cannes foi muito merecido, consagrando uma atuação realmente completa. Nota: 4/5 (Muito Bom)

15) 120 Batimentos por Minuto (120 battements par minute, França, 2017), dir: Robin Campillo
(Foto: Divulgação)
Neste Festival do Rio, quem gosta de chorar no cinema já tem o que assistir. "120 Batimentos por Minuto" é aquela porrada bem dada do ano. Mas bem dada mesmo! A história gira em torno da Act Up, grupo ativista da questão da AIDS, e suas ações em Paris na década de 90. Simultaneamente às cenas das intervenções públicas, o filme dedica boa parte do tempo a nos inserir nas reuniões da organização, mostrando seus debates internos, a interação entre os membros e o que motiva cada um. Desta forma, somos apresentados a diversas figuras fascinantes e os contextos que as levaram para o Act Up, assim como seus trágicos destinos. O roteiro de Robin Campillo (também diretor) e Philippe Mangeot tem a delicadeza de dar rostos (mesmo que fictícios) aos milhares de infectados pelo vírus HIV que por anos tiveram que lutar contra o descaso do poder público e a brutalidade das grandes corporações farmacêuticas. O filme é hábil ao mostrar como o preconceito, a desinformação e os interesses econômicos foram responsáveis diretos por tantas mortes precoces que poderiam ter sido evitadas. "120 Batimentos por Minuto" é um projeto extremamente político, mas também se preocupa com o lado humano e sabe envolver o espectador. Ao mesmo tempo que nos informa, ao fazer questão de mostrar uma cena de sexo com demorados segundos para colocação de um preservativo, também nos prende com os dramas pessoais dos protagonistas e ainda acha espaço para quebrar alguns tabus. A dor no final, deles e nossa, acontece por vermos pessoas tão incríveis perdendo progressivamente a vida e a força de lutar por uma causa tão importante. A porrada vem ao constatarmos que a maioria ali nem se quer lutava mais por si mesmos, mas pelas próximas gerações, para que outros não tivessem o mesmo destino. Isso é um nível de desprendimento tão grande que é impossível não emocionar, justamente por ser tão trágico, mas também muito lindo. Num mundo que sempre os tratou com violência, os ativistas da causa nunca deixaram de devolver com inteligência e amor. Nota: 5/5 (Excelente)

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo, viciado em séries, nerd nas horas vagas e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com

Festival do Rio 2017 #8: 'Invisível', do Festival de Veneza para o Rio

Por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

13) Invisível (Invisible, Argentine, 2017), direção: Pablo Giorgelli
(Foto: Divulgação)
"Invisível" é uma obra de observação. Muito antes de trama ou "grandes temas", a intenção de Pablo Giorgelli é observar sua jovem personagem. Desta forma, ao invés de assistirmos, na realidade presenciamos sua vida. O tom quase documental dá um toque extra de realidade: o diretor não chama atenção pra si mesmo, a montagem é sóbria e praticamente só existem sons diegéticos. A beleza do filme se encontra na habilidade de nos aproximar da protagonista mesmo a revelando por um buraco de fechadura. Não sabemos muito sobre ela, o que em certos momentos se torna um problema no roteiro, mas a observação cautelosa mostra o suficiente para nos deixar interessados e esperançosos. Não que esperança seja um tema muito recorrente em "Invisível". O final deixa uma dúvida nos atos da Ely de Mora Arenillas: seria medo ou amor? No seu choro, tristeza ou a tal esperança? Sinceramente não sei. Nem sequer saberia dizer se tal dúvida foi intencional. Mas só por suscitá-la, o filme já merece sua cota de aplausos. Nota: 4/5 (Muito Bom)

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo, viciado em séries, nerd nas horas vagas e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com

Festival do Rio 2017 #7: 'O Formidável' de Michel Hazanavicius

Por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

12) O Formidável (Le Redoutable, França, 2017), direção: Michel Hazanavicius
(Foto: Divulgação)
Se tem uma coisa que Michel Hazanavicius sabe fazer é brincar com linguagem. Em "O Artista", obra que o lançou para o mundo, já demonstrava uma habilidade ímpar de interagir entre o cinema mudo e o sonoro, assim como entre gêneros, trocando da comédia pro drama e do drama pro musical. Em "O Formidável", o diretor repete e expande a dose, abusando da quebra da 4º parede, brincando com convenções e fazendo várias piadas sobre a produção cinematográfica. Esses recursos, somados às boas atuações do elenco principal, conseguem dar graça e bom humor ao filme, que em certos momentos até arrancam boas gargalhadas. O problema é que o roteiro não sabe dosar muito bem o Godard de Louis Garrel, não importa os bons esforços do ator. Em certo ponto, sua irreverência vira aborrecimento e o filme que vinha até então divertindo começa a irritar. Hazanavicius e seu protagonista se deixam levar por um tom de deboche que contamina o projeto inteiro, tornando-o enfadonho no lugar de interessante. Não diria que "O Formidável" se torna um desastre ou algo do tipo, mas termina sem dúvida com um sabor de potencial desperdiçado. Nota: 3/5 (Bom)

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Festival do Rio 2017 #6: 'God's Own Country', premiado em Berlim

Por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

11) God's Own Country (idem, Reino Unido, 2017), direção: Francis Lee
(Foto: Divulgação)
"God's Own Country" chega ao Rio de Janeiro com duas grifes muito importantes em seu currículo: Berlim e Sundance, premiado em ambos. Os motivos de tamanho sucesso no circuito de festivais não são difíceis de entender. O filme tem um controle na narrativa raro de se ver. Nada parece sobrar na encenação contida de Francis Lee (diretor e roteirista). Sua história é basicamente visual, com poucos diálogos, calcada em detalhes e pequenas ações. Até os conflitos do roteiro seguem a lógica do universo de silêncio e contemplação daqueles personagens: poucas palavras, atuações controladas, nem um resquício de melodrama. Mas paradoxalmente, os mesmos mostram uma capacidade enorme de amar. Isso que torna o filme tão belo: um "eu te amo" desesperado pode indicar afeto, mas um toque, um olhar, um sorriso discreto indicam ainda mais. Nota: 5/5 (Excelente)

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Festival do Rio 2017 #5: 'The Florida Project' com Willem Dafoe

Por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

10) The Florida Project (idem, EUA, 2017), direção: Sean Baker
(Foto: Divulgação)
Costumo ser meio cético com crianças prodígias nas telonas. Sempre tendo a achar que é mais mérito do diretor (ou preparador de elenco) que soube manipular os atores-mirins da forma certa, para a cena certa, do que mérito dos próprios pequenos. Mas bastaram 5 minutos de "The Florida Project" para essa minha percepção desabar. Porque a menininha que protagoniza o filme é, na falta de uma expressão melhor, uma força da natureza. Mais que isso: é uma atriz completa, com tempo de comédia, expressividade, dramaticidade, tudo! Se o universo for justo, esta pequena deusa da atuação chamada Brooklynn Prince vai ser no mínimo a nova Meryl Streep.
Mas o filme não se limita apenas ao seu mini-fenômeno. O diretor e roteirista Sean Baker, conhecido por "Tangerine" de 2015 (gravado todo em iPhone), consegue retratar uma realidade dura de forma singela e amorosa. Sim, estamos vendo pessoas em situação difícil, mas isso não significa que falte amor ou carinho. Ao optar pela observação, Baker humaniza seus personagens e nos coloca bem próximos deles. Os fogos do Magic Kindgom geram gritos de prazer de uma mãe e sua filha, mas para nós é um momento de tristeza, por mostrar que o mundo de fantasia da Disney não é permitido para todos. Mas a observação continua, e a cada instante desejamos mais a felicidade da pequena protagonista. Por conta disso, o final surje com um mix de emoções. Lindo por sua concepção artística e raio de esperança, triste por não parecer nada real na vida daquelas pessoas que aprendemos a amar. Nota: 5/5 (Excelente)

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo, viciado em séries, nerd nas horas vagas e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com