'[nome do espetáculo]' foge à regra e traz novo conceito de musical

Por Rodrigo Vianna



Pegue quatro cadeiras, um teclado, quatro atores, um músico e um roteiro. Pronto. Temos um musical. Assim é "[nome do espetáculo]", que está em cartaz no Centro  Cultural da Justiça Federal, no Centro do Rio de Janeiro, até o dia 4 de fevereiro. O musical é uma versão nacional do premiado [title of show], da Broadway, que completa 10 anos em 2018. A versão brasileira do texto e das músicas ficou a cargo de Caio Scot, Carol Berres, Junio Duarte, Luísa Vianna e Tauã Delmiro. Aliás, a trilha sonora é um dos destaques do espetáculo, mas isso falamos mais tarde.

Na Broadway, [title of show] foi indicado ao Tony Award de Melhor Libreto de Musical e, no Brasil, [nome do espetáculo] está indicado em 4 categorias tanto no “Prêmio do Humor”, idealizado pelo ator Fábio Porchat, quanto no “Prêmio Botequim Cultural”, incluindo “Melhor Espetáculo”. Não é pra menos. Depois de assistir ao espetáculo, você deixa o teatro com a sensação de ter visto uma verdadeira obra prima do teatro musical contemporâneo. Exagero? Não acho. Para uma produção simples, sem grandes patrocínios e estrelas globais, [nome do espetáculo] foge à regra e mostra que é possível fazer musical no Brasil com pouco.

Antes de mais nada, vamos falar sobre o espetáculo. Através da metalinguagem, o musical conta a sua própria história. Com apenas quatro atores e um músico, satiriza e homenageia o gênero musical ao mesmo tempo em que aborda o próprio fazer artístico e todas as etapas de se produzir arte de maneira independente. [nome do espetáculo] é, acima de tudo, sobre sonhar e fazer acontecer. Mesmo para quem não é do meio artístico, consegue se ver nas situações proposta pelo texto.


É um musical que ri de si mesmo. No palco, vemos quatro atores: Hunter (Caio Scot), Heidi (Carol Berres), Susan (Ingrid Klug) – que rouba a cena - e Jeff (Junio Duart). Eles são acompanhados pelo “quase” mudo, Larry (Gustavo Tibi). O design de som é assinado por Gabriel D’Angelo, que também assina o espetáculo “Bibi - Uma vida em musical”, em cartaz no Rio de Janeiro. A iluminação é de Paulo César Medeiros, vencedor do Prêmio Shell, e o cenário é de Cris Delamare.

Apesar de ser uma versão de um musical original da Broadway, o texto traz situações comuns do cotidiano dos brasileiros e de fatos e nomes que estão na nossa história. Talvez por isso o público se identifique de cara. Como por exemplo quando Susan diz que vai fazer uma famosa pose da Xuxa na capa de um dos seus discos. Ou quando Heidi conta que fez teste para um papel no musical “A Noviça Rebelde”, da dupla Cláudio Botelho e Charles Moeller, que deve estrear esse ano. Assim, citando fatos, nomes e situações dos brasileiros, o espetáculo conquista o seu público.

O texto dinâmico ajuda na compreensão e desenvolvimento das cenas. É possível ver como o elenco está familiarizado com as falas e ganham liberdade para improvisar. Em dos momentos, apenas, o texto perde o ritmo, mas não compromete o todo. É sim um grande trabalho de adaptação e criação, sem transportar o espectador para uma realidade que não é dele. Isso tudo também é possível graças à ótima atuação da direção, que trabalhou nas cenas de forma clara e concisa.


Elenco afinado
Talvez uma das coisas mais positivas de se ter um elenco enxuto é a sintonia entre eles. E isso é possível ver nos 5 artistas em cena. É como se um estivesse conectado no outro. Quem roubou a cena durante toda a apresentação foi a atriz Ingrid Klug, que interpreta a hilária Susan. Com humor aguçado, intepretação impecável, é ela a responsável pelas melhores piadas do musical. Ingrid trouxe uma Susan leve, divertida e brasileira. Ué, mas não é uma história americana? Sim, mas mais uma vez entra a liberdade de criação do elenco que traz para os personagens nossas características.

Vamos falar agora de outro destaque do elenco: Junio Duart, que atuou em sucessos como “The Book of Mormon”. Junio mostrou equilíbrio de voz e soube dosar as emoções, sem parecer exagerado, nem contido. O ator mostrou domínio de cena e pareceu à vontade. Caio Scot e Carol Berres cumpriram com maestria os seus papéis e ajudaram a dar um tom mais leve ao espetáculo.


A cenografia simples, mas conceitual, deixa o espetáculo mais dinâmico. Além de assinar a direção musical do espetáculo, Gustavo Tibi é responsável pela trilha sonora, que não se limita apenas ao teclado. E sim, ele tem falas. Lembra que eu falei das músicas lá no começo? Pois bem, elas são um atrativo à parte. Com letras inteligentes, melodia e uma pitada de humor, as canções ajudam a compor a cena e não caem na mesmice de ser apenas uma justificativa para o gênero.

Depois de uma hora e meia de espetáculo, deixei o teatro com a sensação de frescor e feliz com o que acabara de ver. [nome do espetáculo] não é um musical comum e prova que é possível fazer teatro sem grandes patrocinadores. Basta a paixão pelo palco, um grupo de amigos e um bom texto. Pronto, agora, é só sentar e se divertir.

Serviço:

[nome do espetáculo]

Temporada: até 4 de fevereiro
De sexta a domingo às 19h
Local: Centro Cultural Justiça Federal
Avenida Rio Branco, 241. Centro - Rio de Janeiro
Tel: (21) 3261-2550
Preços: 40,00 (inteira)/20,00 (meia entrada)
Classificação: 14 anos
Duração: 90 minutos

Ficha Técnica:

TEXTO ORIGINAL: Hunter Bell
LETRAS E MÚSICAS ORIGINAIS: Jeff Bowen
VERSÃO BRASILEIRA (TEXTO E MÚSICAS): Caio Scot, Carol Berres, Junio Duarte, Luísa Vianna e Tauã Delmiro
DIREÇÃO ARTÍSTICA: Tauã Delmiro
ELENCO: Caio Scot, Carol Berres, Junio Duarte, Ingrid Klug e Gustavo Tibi
STAND IN: Catherine Henriques
CENÁRIO: Cris de Lamare
FIGURINO: Tauã Delmiro
ILUMINAÇÃO: Paulo César Medeiros
DIREÇÃO MUSICAL: Gustavo Tibi
DIREÇÃO VOCAL: Rafael VillarDESIGNER DE SOM: Gabriel D’Angelo
OPERADOR DE SOM: Cidinho Rodrigues
OPERADOR DE LUZ: Dans Souza
DESIGNER GRÁFICO: Thiago Fontin
PRODUÇÃO: Alessandro Zoe e Manuela Hashimoto
ASSISTENTE DE PRODUÇÃO: Gabriel Peregrino
IDEALIZAÇÃO: Caio Scot e Junio Duarte
REALIZAÇÃO: Caju Produções

'Me Chame pelo Seu Nome': paixão entre silêncios e afeto

Crítica por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

"Me Chame pelo Seu Nome", Direção: Luca Guadagnino (Foto: Sony Pictures/Divulgação)
O conceito de "romance" enquanto gênero cinematográfico tem inúmeras vertentes, sendo talvez a mais conhecida a das "comédias-românticas" americanas, características da filmografia do país. "Me Chame pelo Seu Nome", co-produção entre Itália, França, Estados Unidos e Brasil, não poderia estar mais distante desta ideia, se apresentando como uma obra completamente fora da curva dentro da sua categoria.

Não por conta do seu conteúdo ou orientação sexual de seus personagens. Mas por sua narrativa pausada, sem momentos de explosões e disciplinada o suficiente para jamais flertar com o melodrama. O roteiro do veterano James Ivory busca a interação dos personagens e como gradualmente os mesmos vão se envolvendo e mudando suas percepções uns dos outros. A trama em si é tênue, quase imperceptível, de certa forma irrelevante. Coisas acontecem, pessoas vão e voltam, mas Ivory deixa tudo em segundo plano, tentando achar um recorte pessoal e íntimo daquele verão de 1983 no norte da Itália.

(Foto: Sony Pictures/Divulgação)
Em harmonia com o texto que tem em mãos, Luca Guadagnino opta por uma abordagem de observação, com planos longos e semi-estáticos, como se não quisesse que sua presença fosse notada. Este tipo de decupagem combina muito com o projeto, dando força às belas atuações, aos diálogos bem construídos e até à fotografia sempre viva e colorida. Por ser um projeto com poucas viradas ou movimentos grandes na trama, "Me Chame pelo Seu Nome" depende imensamente dos pequenos momentos, como uma troca de olhares, leves alterações nas falas e mesmo silêncios cronometrados. Estes breves gestos vão estabelecendo a crescente paixão entre os protagonistas de forma natural e romântica, sem jamais soar apressada e muito menos artificial.

O filme cai aqui e ali em algumas passagens redundantes, o que resulta numa duração um pouco além do necessário. Guadagnino parece ter se deslumbrado demais com aquele ambiente e se deixou perder em tangentes que pouco acrescentam. Felizmente, já perto dos minutos finais, o cineasta acha o caminho de volta e entrega uma cena absolutamente fabulosa entre dois de seus personagens, com destaque absoluto para Michael Stuhlbarg, dono de um monólogo arrebatador que mistura entendimento, ternura e orgulho. 

O maior acerto do diretor e seu roteirista é entender a natureza romântica do projeto, tornando-a natural, lúdica e afetuosa. Afinal não estamos diante de uma obra de problematização, debate de sexualidade ou tragédias de preconceito. "Me Chame pelo Seu Nome" é antes de tudo uma história de amor entre duas pessoas que se desejam profundamente. Ver problema com isso por conta de gênero, talvez seja mais falha do espectador do que do filme em si.

Nota: 4/5 (Muito Bom)

Mais informações:
- Elenco, fotos e ficha técnica completa: www.imdb.com/title/tt5726616
- Distribuição: Sony Pictures

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo, viciado em séries, nerd nas horas vagas e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com

[nome do espetáculo] reestreia no Rio em curta temporada

[nome do espetáculo] reestreia hoje no Rio (Foto: Divulgação)

Uma sátira e uma homenagem ao teatro musical. Assim é [nome do espetáculo], versão brasileira de [title of show], reestreia nesta sexta-feira (19) para uma curtíssima temporada no Centro Cultural da Justiça Federal, na Cinelândia, no Rio de Janeiro. A peça volta aos palcos no ano em que a versão original da Broadway completa uma década. 

[title of show] foi indicado ao Tony Award de Melhor Libreto de Musical e, no Brasil, [nome do espetáculo] está indicado em 4 categorias tanto no “Prêmio do Humor”, idealizado pelo ator Fábio Porchat, quanto no “Prêmio Botequim Cultural”, incluindo “Melhor Espetáculo”.  

O musical
O musical, através da metalinguagem, conta a sua própria história. Com apenas quatro atores e um músico, satiriza e homenageia o gênero musical ao mesmo tempo em que aborda o próprio fazer artístico e todas as etapas de se produzir arte de maneira independente. [nome do espetáculo] é, acima de tudo, sobre sonhar e fazer acontecer.


A direção é assinada pelo premiado ator e dramaturgo, Tauã Delmiro, atualmente em cartaz em “60! Uma década de arromba”. A direção musical fica a cargo de Gustavo Tibi, integrante da banda Jamz (vice campeã do “Superstar”, da TV Globo, e duas vezes indicada ao Grammy de Melhor Álbum Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa).

Elenco
O elenco é composto por Caio Scot (Hunter), Carol Berres (Heidi), Ingrid Klug (Susan), Junio Duarte (Jeff) e Gustavo Tibi (Larry). O design de som é assinado por Gabriel D’Angelo, que também assina o espetáculo “Bibi - Uma vida em musical”, em cartaz no Rio de Janeiro. A iluminação é de Paulo César Medeiros, vencedor do Prêmio Shell, e o cenário é de Cris Delamare.


Serviço:

[nome do espetáculo]

Temporada: 19 de janeiro a 4 de fevereiro
De sexta a domingo às 19h
Local: Centro Cultural Justiça Federal
Avenida Rio Branco, 241. Centro - Rio de Janeiro
Tel: (21) 3261-2550
Preços: 40,00 (inteira)/20,00 (meia entrada)
Classificação: 14 anos
Duração: 90 minutos

Ficha Técnica:

TEXTO ORIGINAL: Hunter Bell
LETRAS E MÚSICAS ORIGINAIS: Jeff Bowen 
VERSÃO BRASILEIRA (TEXTO E MÚSICAS): Caio Scot, Carol Berres, Junio Duarte, Luísa Vianna e Tauã Delmiro 
DIREÇÃO ARTÍSTICA: Tauã Delmiro 
ELENCO: Caio Scot, Carol Berres, Junio Duarte, Ingrid Klug e Gustavo Tibi
STAND IN: Catherine Henriques 
CENÁRIO: Cris de Lamare 
FIGURINO: Tauã Delmiro 
ILUMINAÇÃO: Paulo César Medeiros 
DIREÇÃO MUSICAL: Gustavo Tibi 
DIREÇÃO VOCAL: Rafael VillarDESIGNER DE SOM: Gabriel D’Angelo 
OPERADOR DE SOM: Cidinho Rodrigues 
OPERADOR DE LUZ: Dans Souza 
DESIGNER GRÁFICO: Thiago Fontin 
PRODUÇÃO: Alessandro Zoe e Manuela Hashimoto 
ASSISTENTE DE PRODUÇÃO: Gabriel Peregrino
IDEALIZAÇÃO: Caio Scot e Junio Duarte 
REALIZAÇÃO: Caju Produções

'Extraordinário': drama de superação bonitinho, porém inofensivo

Crítica por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

"Extraordinário", Direção: Stephen Chbosky (Foto: Divulgação - Paris Filmes)
História de superação infantil é sempre um tema muito delicado. "Extraordinário", baseado no livro de R.J. Palacio, conta a trajetória de um menino que nasceu com a síndrome de Treacher Collins, uma condição brutal que gera várias complicações durante a vida. Imaginem os olhares, o preconceito, o desprezo, coisas que já devem ser terríveis para um adulto, enfrentados por uma criança. Dependendo do interesse do cineasta, uma trama dessas poderia variar do drama existencial até um thriller de terror psicológico. Claro, com muito choro garantido.

Curiosamente, Stephen Chbosky (do maravilhoso "As Vantagens de Ser Invisível") toma uma decisão inesperada e escolhe investir num texto leve, gostoso e lúdico. As dificuldades de Auggie (protagonista) nunca deixam de ser passadas, mas o filme vai nos levando pelo seu humor e carisma, ao invés de pelos seus medos ou inseguranças. O menino, além de extremamente divertido, encontra seu refúgio no espaço, seja em "Star Wars", que cita o tempo todo, seja dentro de seu capacete de astronauta. A relação é bonita, mas ao mesmo tempo melancólica e dura. Como se o pequeno Auggie só encontrasse conforto fora da Terra, perto de outros seres fantásticos (a citação ao Chewbacca é perfeita neste sentido) e longe da realidade. 

(Foto: Divulgação - Paris Filmes)
O filme encontra sua força nesses momentos em que se concentra no protagonista e suas interações com a família e seus novos amigos. Quando a trama escapa por vertentes para mostrar pontos de vistas variados, apesar de ser um recurso interessante se bem utilizado, na prática o projeto dá uma enfraquecida. Os coadjuvantes são interessantes, não é esse o problema. Mas talvez a quantidade excessiva de histórias paralelas tire um pouco o foco do próprio Auggie, justamente nas horas que precisávamos estar juntos dele. E não pensando no cara do clube de teatro, na melhor amiga da irmã ou na mãe do amiguinho, que sim podem ser pertinentes no livro, mas nem tanto num longa de 2 horas.

Como consequência, fica faltando também um pouco mais de profundidade na rotina real do protagonista, que certamente envolveria cirurgias, corridas ao hospital, provável dificuldade de aprendizagem e outros obstáculos terríveis. Pode ser uma escolha consciente de Chbosky, mas é inegável que tem seu preço. Acho louvável seu esforço de não deixar o projeto cair em melodrama barato, mas falta impacto e momentos definidores na história. Fortaleceria Auggie, assim como sua família e seus entes queridos. Muito mais que uma sequência dramática envolvendo um cachorrinho, que nada acrescenta a ninguém.

"Extraordinário" tem momentos tão bonitos que por conta desses tropeços acaba soando como oportunidade desperdiçada. O filme tem coração, emociona, mas não passa de inofensivo na maior parte do tempo. Felizmente, o menino vivido com energia e carisma por Jacob Tremblay tem uma luz tão brilhante dentro de si que consegue cativar até quando não está em cena. Sua condição não passa de uma máscara injusta para uma criança bondosa, inocente e humana. Assim como Chewbacca, Auggie é um herói a sua maneira. 

Nota: 3/5 (Bom)

Mais informações:
- Elenco, fotos e ficha técnica completa: www.imdb.com/title/tt2543472
- Distribuição: Paris Filmes

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo, viciado em séries, nerd nas horas vagas e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com

'Star Wars: Os Últimos Jedi': entre ciclos, memórias e recomeços

Crítica por Eduardo Cabanas (Twitter: @edu_dc)

"Star Wars: Os Últimos Jedi", Direção: Rian Johnson (Foto: Divulgação - Lucasfilm / Disney)
É impossível falar de Star Wars sem o fator emocional. Deixo já bem claro antes de qualquer coisa, caso alguém tenha chegado aqui esperando um texto sóbrio e isento. Não vai ser o caso, afinal são 20 anos vivendo essa saga, duas décadas de amor, ódio, alegria e raiva. "Guerra nas Estrelas", como a conheci em 1997, não é apenas um filme, mas um movimento cultural que me trouxe amigos, memórias e a própria paixão por cinema. Portanto peço licença por recorrer à primeira pessoa e falar de "Star Wars: Os Últimos Jedi" de uma forma um pouco mais pessoal que o normal.

Assistir o "Despertar da Força" em 2015 foi um êxtase. Depois da trilogia nova (que hoje faz mais sentido chamar de "prequel"), o ânimo de qualquer fã da saga estava bem por baixo. Não são grandes filmes, mas pior que isso, não são bons Star Wars. O título está lá, mas a sensação de reconhecimento não existe. Os Episódios 1 a 3 trazem um sentimento estranho de ver tantas coisas queridas sem contexto ou ressignificadas da pior maneira possível. Com a entrada de J.J. Abrams, Kathleen Kennedy e seu "grupo de roteiristas", o panorama tomou um rumo inesperado e muito bem-vindo. Há quem questione a exclusão de clássicos do universo expandido do cânone oficial, mas o fato é que a Disney reviveu e organizou Star Wars como poucos poderiam esperar. "Despertar" e "Rogue One" trouxeram figuras que nós amamos e o universo fabuloso de George Lucas com o mesmo cheiro, o mesmo calor e magia presentes em "Uma Nova Esperança", de um jeito que o próprio criador parecia ter se tornado incapaz de fazer.

Portanto, é com muita alegria que assisti o Episódio VIII e pude presenciar mais um grande filme, que não só funciona como obra independente, como grita Star Wars, reverencia a trilogia clássica e ainda consegue apontar para o futuro. Porque "Os Últimos Jedi" é afinal de contas uma passagem de bastão, desta vez definitiva. A cada segundo de filme, Rian Johnson parece se esforçar em nos dizer para aproveitar cada momento com Luke, Leia e Chewie. Não pude deixar de sentir que estava prestes a ver alguns de meus velhos amigos pela última vez. E aqui entra a grande responsabilidade do diretor e seu elenco encabeçado por Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac e Adam Driver: levar Star Wars adiante e carregar nos ombros um legado de mais de 40 anos. Mesmo com esta missão quase impossível, o filme se sai muito bem, mostrando novas ideias ao mesmo tempo que desperta lembranças tão bonitas.

(Foto: Divulgação - Lucasfilme / Disney) 
Evidente que o filme não é perfeito, voltando a demonstrar alguns furos de roteiro que o anterior já tinha. Desta forma fica faltando um pouco de contexto ao Líder Snoke, ao cenário político da galáxia e até à própria história da Rey. Imagino que muitas destas respostas estarão no Episódio IX ou em alguma obra literária, afinal não podemos esquecer que Star Wars tem toda uma franquia midiática para abastecer, mas não deixa de ser uma escolha que tem seu preço. Entretanto, não são problemas que cheguem a comprometer o projeto. Johnson pode pecar um pouco no excesso de tramas paralelas do início, mas compensa com uma montagem muito disciplinada, que pula de evento em evento sem perder o ritmo, e decupagem extremamente elegante. Vejam a sequência de abertura ou a cena de batalha numa sala vermelha (sem spoilers!), e reparem como ambas são belas, espacialmente bem definidas, dramaticamente poderosas e elevam o filme a ponto de causar arrepios.

Aliás, falando em arrepios, "Os Últimos Jedi" sabe muito bem o que está fazendo. O roteiro investe numa reflexão muito bonita da relação entre mestre e aprendiz, mostrando que um não vive sem o outro. Kylo Ren quer ignorar o passado, Poe tem o ímpeto da juventude e Rey demonstra a impaciência típica de uma jovem jedi, estando todos eles errados às suas maneiras. Seus mestres, ou líderes, dependem deles, mas também tem muito a ensinar. O 'novo' não necessariamente é melhor que o 'velho': Kylo precisou do pai, Poe precisa de Leia e Rey depende de Luke. Um pouco como os novos filmes olham com respeito para os antigos, evoluindo sem jamais abandoná-los. Ou como o ciclo de Luke é mostrado neste episódio.

Ver Mark Hamill barbado com cabelos grisalhos pode ser um choque, por remeter à lembrança daquele menino esperançoso de Tatooine, mas ao mesmo tempo é muito emocionante. Justamente por podermos presenciar a decadência, renovação de esperança, reencontro com velhos conhecidos (que cena meu deus, que cena!) e, por fim, seu momento de paz. Luke Skywalker ganha neste filme uma trajetória tão linda e significativa, que se torna impossível não chorar ou no mínimo lembrar de bons tempos que passamos com ele. 

"Star Wars: Os Últimos Jedi" termina com um sentimento muito particular da franquia. Não quero ser específico aqui, para evitar spoilers, mas mesmo diante de tragédias, a sensação das últimas cenas não é exatamente de tristeza ou alegria. É de esperança. Aquela mesma de soldados sendo honrados após destruir a Estrela da Morte ou de dois irmãos olhando juntos para o infinito do espaço. Mas também aquela capaz de construir rebeliões ou despertar a força dentro de uma certa menina de Jakku. Star Wars é uma faísca de esperança, antes com Luke, agora com Rey, mas sempre parte de todos nós.

Nota: 5/5 (Excelente)

Mais informações:
- Elenco, fotos e ficha técnica completa: www.imdb.com/title/tt2527336
- Distribuidora: Disney

Sobre o autor: Eduardo é produtor cultural, cinéfilo, viciado em séries, nerd nas horas vagas e autor do blog de viagens Player 1 Viajante: www.player1viajante.com

‘Vila Encantada de Natal’ leva teatro e cinema a 6 cidades do RJ


A partir desta sexta-feira (8), seis cidades do Rio de Janeiro vão receber a caravana “Vila Encantada de Natal”, que conta com exibição de filme, espetáculo teatral e oficina de enfeites natalinos. Ao ar livre e com entrada franca, o projeto será realizado até o dia 17 de Dezembro, durante os finais de semana, nas cidades de Duque de Caxias, Itaboraí, São Gonçalo, Casimiro de Abreu, Rio das Ostras e São Pedro da Aldeia.

A Vila Encantada de Natal contará com atividades que promovem a mobilização dos moradores locais, como uma oficina de arte com material reciclado, ministrada por artesãos locais, e um mutirão voluntário para a realização da decoração do local do evento. Além disso, um espetáculo de teatro e um filme curta-metragem serão apresentados ao ar livre, com entrada franca, para todas as idades.

O projeto Vila Encantada de Natal é realizado no Ceará desde 2015, pelo Grupo Manga com a Kundera Produções Artísticas. No Rio, conta o patrocínio da Enel, por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Estado do Rio de Janeiro.

Serviço: 

Vila Encantada de Natal

Dias 8, 9, 10, 15, 16 e 17 de dezembro (sexta-feira, sábado e domingo) 
Entrada Franca
Classificação: Livre

Cidades:

Duque de Caxias, dia 8/12, sexta-feira, na Praça da Rua 2;
Itaboraí, dia9/12, sábado, na Praça Marechal Florida;
São Gonçalo, dia 10/12, domingo, no Estacionamento do São Gonçalo Shopping;
Casimiro de Abreu, dia 15/12, sexta-feira, na Praça Feliciano Sodré;
Rio das Ostras, dia 16/12, sábado, na Praça São Pedro;
São Pedro da Aldeia, dia 17/12, domingo, na Praça Agenor Santos.